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Vir a Itália e não comer

Estou neste momento em Itália, em trabalho. Cheguei há três dias. Não como nada há 4 dias. Sim, vim para Itália e ainda não comi nem uma migalha. Vou embora amanhã e tenciono continuar sem comer. O plano é mesmo não comer durante, pelo menos, 6 dias.

 

Quem me lê pode já estar a ficar chocado. E apesar de saber que as explicações que possa dar vão continuar a não fazer sentido para muitos, vou fazê-lo na mesma.

 

Aquilo que estou a fazer neste momento chama-se “water fasting”, ou em português, jejum de água. Consiste num período de tempo em que a única coisa ingerida é água. Esse período pode variar desde 8 horas (aquilo que todos fazemos à noite quando vamos dormir, ou seja, entre o jantar e o pequeno almoço do dia seguinte) até vários dias. Os protocolos mais habituais contemplam 3, 6, 7 ou 10 dias de jejum, mas há quem faça períodos bem mais longos. Mahatma Gandhi, por exemplo, fez vários jejuns, que duraram desde 1 dia até um máximo de 21 dias, tendo sido alguns deles por motivos ativistas e tendo-se mesmo tornado famosos. Há jejuns reportados de 25, 30 ou mesmo 40 dias. A maior parte das pessoas com quem tenho falado sobre este assunto tem logo como primeira reação duvidar de tal possibilidade. Mesmo quando falo do jejum que estou a fazer de apenas 6 ou 7 dias, as pessoas perguntam logo “Mas é sequer possível estar tanto tempo sem comer?” E a resposta resumida é: sim, é.

agua

Estamos tão habituados a comer regularmente, i.e. todos os dias, que nos custa a acreditar que este tipo de protocolos seja possível. Aliás, as comuns recomendações de “comer a cada 2 ou 3 horas”, supostamente para acelerar o metabolismo, vêm reforçar ainda mais esta crença e notícias como a que surgiu recentemente nos jornais dão ainda mais ênfase à necessidade de estarmos constantemente e ingerir alimentos.

 

No entanto, se pensarmos em termos históricos, fará esta crença sentido? Ainda para mais, com a recente moda da dieta do paleolítico, não deveríamos repensar este paradigma? Será que na idade da pedra, os nossos antepassados tinham bacon para comer ao pequeno almoço, e depois um naco de carne para o almoço e outro para o jantar? Conseguiriam eles caçar todos os dias? Tal provavelmente dependeria muito da região, da época do ano e de outros fatores, mas a crença atual é que não. Pensa-se que as comunidades passassem alguns dias sem comer, até conseguirem caçar algum animal, que aproveitariam até ao fim (incluindo orgãos internos), seguindo-se novo período sem alimento. Aliás, daí advém a adaptação humana para acumulação de gordura, única forma de conseguirem sobreviver a períodos mais longos sem alimento.

 

Felizmente, outras dietas começam a tornar-se moda, e uma delas é o jejum intermitente, que já começa a desmistificar significativamente a necessidade de comermos várias vezes ao dia, e principalmente, logo ao acordar. As pessoas que praticam jejum intermitente costumam fazer regularmente períodos de jejum reduzidos. Há vários protocolos, mas por exemplo, há quem faça diariamente 16 horas de jejum, que consiste muito simplesmente em saltar o pequeno almoço (por exemplo, acabar de jantar às 21h e no dia seguinte apenas almoçar às 13h), e há quem faça períodos ligeiramente mais longos, de 24 ou 36 horas, uma ou duas vezes por semana. Alegadamente, esta dieta ajuda na perda de peso mesmo mantendo a mesma ingestão de calorias, mas pelo que tenho lido online (e no fundo como todas as dietas), pode variar muito dependendo da pessoa.

 

Mas voltando ao meu jejum em Itália. Decidi fazer 6 ou 7 dias de jejum (dependendo de como correr, logo decido se faço os 7 ou se fico pelos 6). E decidi fazer esse jejum coincidir com uma viagem de trabalho de 4 dias e meio a Itália. Os meus motivos para tomar estas decisões foram variados, e passo a enumerar:

 

  1. Já tinha experimentado o jejum intermitente de 16 + 8 (o qual não sigo de momento) e tenho o hábito de volta e meia, mais ou menos uma vez a cada uma ou duas semanas, fazer 24 ou 36 horas de jejum. Já fiz também um jejum mais alargado de cerca de 2 dias e meio (65 horas), por isso já estou habituada a passar períodos de tempo sem comer.
  2. Sempre que faço jejum sinto-me bem. Gosto de não ter de me preocupar com comida, o que e quando vou preparar, quando vou ter tempo para comer, o que preciso de comprar, durante pelo menos um dia. Dá-me uma sensação de liberdade e acaba por sobrar mais tempo para outras coisas.
  3. Vejo um protocolo deste género como uma espécie de desafio pessoal, um teste à minha força de vontade e resiliência. Normalmente, quando imponho desafios deste género a mim própria, acabo por nunca (ou muito raramente) ceder.
  4. Ultimamente as minhas escolhas em termos alimentares não andavam a ser as melhores e senti que esta podia ser uma boa forma de retomar hábitos saudáveis, uma espécie de reset. Um protocolo deste género tem grandes propriedades de detox, e ninguém quer voltar a encher o corpo de porcarias logo após um detox tão profundo.
  5. Exatamente pelo detox propriamente dito. Lá está, a minha alimentação não tem sido a melhor nos últimos tempos, pelo que toxinas não devem faltar cá por dentro e queria tentar limpar um pouco. Quem já fez este tipo de jejuns muitas vezes alega pele mais lisa e limpa, sistema digestivo a funcionar melhor, menos cravings por porcarias, entre outros benefícios após o jejum.
  6. Pelas alegadas propriedades curativas do jejum. Teoricamente, quando o nosso corpo não tem de gastar energia a digerir alimentos e a armazenar energia na nossas células, consegue concentrar-se em outras atividades, nomeadamente em curar algumas lesões que possamos ter. Daí haver alegadas curas de cancro através do jejum prolongado (penso que nenhuma comprovada cientificamente). Para além disso, há quem alegue deixar de ter dores nas articulações que já duravam há anos, entre outras coisas. Eu não tenho nenhuma condição grave, mas tenho síndrome dos ovários poliquísticos. Isto quer dizer que tenho pequenos quistos nos ovários, entre outros sintomas, como por exemplo desregulação hormonal, e que posso vir a ter dificuldades em engravidar. Não estou à espera de curar esta condição através do jejum, e nem sequer vou monitorizar (não tenho nenhuma ecografia aos ovários marcada para depois do jejum). Mas pode ser que traga alguns benefícios, quando mais não seja na melhoria de alguns dos sintomas.
  7. Finalmente, decidi que a melhor altura para o fazer seria na semana em quem vim a Itália (e ainda por cima pela primeira vez) porque aqui a maior parte da comida típica (pastas, pizzas) está carregada de hidratos de carbono, algo que tento evitar, tanto por controlo de peso como exatamente pela condição dos ovários poliquísticos, que faz com que tenha tendência para a resistência à insulina. Assim, ao fazer jejum esta semana estou a evitar ingerir uma quantidade grande de hidratos de carbono que de outra forma não tenho a certeza se conseguiria resistir. É uma decisão dura, ainda por cima é a minha primeira vez em Itália, adoro pasta e pizza, e andava ansiosa por visitar este país, em parte pela comida maravilhosa. Mas a verdade é que estou aqui em trabalho. E para mim, cada vez mais me convenço que viagens de trabalho não podem significar excepções à dieta, por vários motivos. Porque viajo cada vez mais em trabalho, e se vou a usar isso como desculpa para provar coisas pouco saudáveis, nunca mais faço progressos na minha saúde. Porque quero muito implementar a estratégia de que posso comer coisas mais indulgentes e menos saudáveis mas apenas faz sentido fazê-lo em momentos de celebração e em convívio com outras pessoas, mas com pessoas das minhas relações pessoas, não em trabalho. Uma viagem de trabalho é mesmo isso: trabalho. E não deve servir como permissão para comermos como se estivéssemos em viagem de férias. Uma última vantagem é que estando aqui e não no meu local de trabalho habitual, não terei de me justificar perante as pessoas com quem costumo almoçar. Já sei que iriam ficar chocadas se eu dissesse que ia estar a semana toda sem comer, e assim, apenas tenho de explicar o que estou a fazer às duas ou três pessoas que vieram comigo nesta viagem, bem mais fácil.

 

Sinto-me bem com esta decisão, e até agora sinto-me bem sem comer. Não tem sido fácil, claro que não. Chega a hora de almoço na empresa e os colegas que vieram comigo encomendam pizzas (a empresa onde estamos a trabalhar não tem cantina). Ao jantar, o pessoal da empresa onde estamos a trabalhar levam-nos a comer a restaurantes bons. Estou obviamente a perder o pequeno almoço do hotel (que os colegas até dizem que não é nada de especial, não sei, nem sequer lá pus os pés, mas pronto, não deixa de ser pequeno almoço, ou seja, a melhor refeição do dia!). Por isso sim, é duro, muito duro. Mas isto mesmo torna o desafio mais interessante.

 

Em relação a fome, tenho sentido alguma. Para já o mais difícil foi a manhã do terceiro dia, se calhar por ter passado a barreira do meu jejum anterior mais longo. Sinceramente, pelos relatos que li na internet de quem já o fez, pensei que seria ligeiramente mais fácil aguentar a fome. Mas enfim, nada que eu não aguente, e pelo menos os 6 dias tenho a certeza que consigo fazer (sou bem capaz de abdicar do 7º).

 

Para já estou a gostar de fazer este desafio, e se me sentir bem até ao fim até gostaria de voltar a repetir no futuro, talvez até monitorizando mais aspetos da minha saúde, por exemplo, fazer análises e ecografias aos ovários antes e depois do jejeum, de forma a poder avaliar os efeitos. Não estou ainda convencida que este método seja a cura milagrosa que tantos garantem, mas que trará alguns benefícios, disso não tenho qualquer dúvida.

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4 Comments

  • Reply
    Samanta McMurray
    April 18, 2017 at 11:50 pm

    Li e adorei! Boa leitura e excelente partilha! Obrigada 🙂

    • Reply
      Filipa M.
      April 19, 2017 at 6:08 am

      Obrigada Samanta, fico muito contente 🙂

  • Reply
    Sofia Rodrigues
    May 15, 2017 at 7:50 am

    Bom dia, Filipa. Nunca tinha ouvido falar desta dieta. É mesmo só água? Nem um café? Antes de ir em peregrinação iniciei uma espécie de paleolítico, cortei batata, arroz, massa, açúcar, sumos, e estava a sentir-me muito bem. Interrompi na peregrinação porque tive receio de me faltarem as forças. Agora volto ao inicio. Aprendi nesta caminhada que mesmo com dor e softimento somos capazes de ultrapassar as dificuldades e concretizar os objectivos. No final, ainda sentimos uma enorme alegria ☺Sei que serás capaz! Bom jejum 😉

    • Reply
      Filipa M.
      May 15, 2017 at 6:19 pm

      Olá Sofia. Não é propriamente uma dieta, no sentido mais comum da palavra. A ideia é ser mesmo só água, mas o ideal é cada um fazer o que funciona melhor para si. Não há problema em beber café ou chá se isso funcionar melhor para ti. Há também que ter em atenção o objetivo do jejum. O chá, mas principalmente o café, se não forem de grande qualidade podem ter algumas toxinas, por isso se a ideia é fazer um detox convém ter em atenção esses aspetos e cortar completamente ou então optar por artigos de elevada qualidade.
      Muitos parabéns pela peregrinação! Acho que estes desafios que impomos a nós próprios, sejam por que motivos forem, servem sempre para nos mostrar a nossa própria força e coragem 😉 Um beijinho

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