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O meu ano sabático – Reações e alguns insights

Ano sabático reações

 

Quando as pessoas à minha volta começaram a saber que eu ia despedir-me do meu emprego (ou, na maior parte dos casos, que já me tinha despedido) para tirar tempo para mim, para mudar de carreira e para perseguir objetivos totalmente diferentes, houve vários tipos de reações diferentes.

 

Como podem imaginar, a minha decisão foi tomada após muito tempo de reflexão, por isso nunca me deixei afetar por opiniões externas às pessoas que habitam a minha casa (e somos só dois). Ainda assim, algumas reações são mais difíceis de se lidar do que outras. Há pessoas cujas opiniões valem mais para mim, pessoas que admiro e com quem tenho relações mais próximas, e o seu ar de desilusão por eu ter decidido abandonar o “caminho brilhante em que me encontrava” custa sempre um bocadinho. Mas quando a vontade de seguir o meu próprio caminho é tão forte, é possível ultrapassar isso tudo, seja maior ou menor a sensação de se estar a desapontar os outros.

 

De uma forma geral, consigo encaixar todas as reações com que me deparei em três categorias diferentes.

 

1 – As pessoas que não entendem

Estava à espera disto e a maior parte dos casos não me chocou. Há pessoas que nunca vão entender este tipo de decisões. Estas pessoas não aceitam – ou ainda não perceberam – que há outras formas de viver a vida. Que não temos de viver presos a conceitos do passado se eles não nos fazem felizes e que podemos viver a vida à nossa própria maneira. Estas pessoas, apesar de a maior parte tentar disfarçar, olham para mim como se eu fosse louca e tivesse perdido completamente a cabeça. Como se não fizesse ideia do buraco onde me estou a enfiar. Tendencialmente, são pessoas mais velhas, mas curiosamente essa não é uma condição necessária.

 

Entendo e aceito. No geral, não me incomoda, salvo raras exceções de pessoas cuja opinião eu até valorizo. Não acho que haja qualquer problema em vermos a vida de forma diferente, eu à minha maneira, pelos vistos mais alternativa, e eles sob outra perspetiva totalmente diferente, desde que sejamos todos felizes.

 

2 – As pessoas que estão de bem com a vida

Estas são as pessoas com quem me diverti mais a falar sobre este assunto. São pessoas que estão bem como estão, as suas vidas fazem-nas felizes e senti mesmo que ficaram felizes por mim, por ter decidido dar este passo. São as pessoas que me disseram que eu sou corajosa e que tinham a certeza que ia correr tudo bem. São as pessoas que se riram comigo, que disseram que eu parecia mais feliz, que me desejaram a maior das sortes com um sorriso na cara, e independentemente daquele que eu escolhesse para ser o meu caminho. São as pessoas que afirmaram não ter qualquer dúvida que eu seria bem sucedida em qualquer área de trabalho que escolhesse, e que mesmo sem perceberem muito bem o que é que eu iria fazer exatamente (com frases do tipo “Mas e agora? Vais fazer o mindfulness!?”, o que quer que seja isso de “fazer o mindfulness”!), deram-me todo o seu apoio. São as pessoas que disseram sentir-se inspiradas pela minha atitude. São as pessoas com quem foi mais fácil falar sobre este mudança.

 

A parte mais gira deste grupo é que uma certa percentagem destas pessoas sabe que, quando chegar o seu momento, é bem capaz de fazer o mesmo, sem medo e sem hesitação. Por isso mesmo, até ficam felizes por terem alguém a demonstrar que é possível mudar de rumo em qualquer altura, para que quando chegar a sua vez, possam ir com um bocadinho menos de medo. Só não me perguntem qual é essa percentagem porque não sei. Alguns disseram-me com todas as letras que um dia fariam igual, outros não disseram mas deu para perceber, e outros talvez nem eles próprios saibam ainda, mas quer-me parecer que há de acontecer!

 

3 – As pessoas que… não sei muito bem como definir

Depois há o terceiro grupo de pessoas. Não sei muito bem como as descrever para quem nunca tenha passado por este tipo de situação. Alguém me disse que estas são as pessoas que “se sentem ameaçadas” pela minha decisão. São pessoas que olham para mim com estranheza, como se pensassem “mas ela acha mesmo que pode fazer isto? Acha mesmo que não tem de se sujeitar às mesmas regras que nós?”

 

À primeira vista, estas pessoas podem ser confundidas com as do primeiro grupo, mas não são bem iguais.

 

No fundo, e indo muito diretamente ao assunto, estas são as pessoas que gostavam de fazer o mesmo que eu mas não têm coragem – ou, se calhar, ainda nem se aperceberam que é essa a sua vontade mais intrínseca. São as pessoas que têm um bichinho qualquer a sussurrar-lhes que é possível – e que até gostavam de – fazer as coisas de forma diferente, mas esse sussurro deixa-as desconfortáveis e por isso tentam silenciá-lo e nunca avançam. São as pessoas para quem algo não está bem mas que não sabem como mudar. Estas são as pessoas mais complicadas de se lidar. Elas não sabem muito bem se te admiram ou se acham que és louca. No fundo, devem sentir um pouquinho das duas coisa, e isso deixa-as, a elas próprias, muito confusas. Elas pensam, ainda que por momentos, algo como “espera lá, afinal é possível fazer as coisas de forma diferente” e logo a seguir pensam “mas se ela pode fazer isto, então talvez eu também possa”. Só que com este pensamento vem aquele friozinho na barriga – aquele que eu sinto todos os dias e que me faz sentir viva – e ficam desconfortáveis e com medo. Não gostam da sensação, por isso querem apagá-la. E então, continuam com as suas vidas como se nada fosse, tentando convencer-se a elas próprias que eu é que sou a louca e que eles é que estão certos.

 

Estas são as pessoas que me deixam, também a mim, muito baralhada – e triste. Até consigo entender o que leva uma pessoa a continuar como está quando sabe que algo não está bem. É o medo. É a incerteza. Não consigo é entender o que leva essas pessoas a não irem mais fundo, a não procurarem outras respostas, a não trabalharem na sua pessoa e na sua realidade de forma a terem a possibilidade de, num momento futuro e com alguma preparação, perseguirem, também elas, os seus sonhos. Entristece-me saber que algo as incomoda mas que não fazem nada para mudar ou então que nem se apercebem que assim é.

 

A estas pessoas, não adianta dizer grande coisa. Elas vão ter de acabar por chegar às suas próprias conclusões sozinhas. Ponto.

 

 

É uma experiência muito interessante, ver como as pessoas reagem a este tipo de situações. Eu, pelo menos, estou a gostar. É engraçado como estas situações mais “fora da caixa” conseguem expor tão facilmente aquilo que vai dentro dos que nos rodeiam. Acho que foram poucas as pessoas que não consegui mesmo decifrar.

 

Felizmente, a maior parte das pessoas que tenho nos meus círculos, encaixam perfeitamente no segundo grupo que descrevi, e isso tornou a maior parte de todo este processo de contar a minha decisão muito mais fácil e divertido. A esses (para quem vier cá ler) mil vezes obrigada pelo vosso apoio!

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4 Comments

  • Reply
    Glória
    November 6, 2017 at 12:25 pm

    Eu sou do grupo 2 com o maior orgulho do mundo, certo? Até já te defendi perante pessoas dos grupos 1 e 3, como se me tivesse a defender a mim própria!!!!

    • Reply
      Filipa Maia
      November 6, 2017 at 12:30 pm

      Oh, que pergunta! Nem me vou dar ao trabalho de te responder 😛 Tens de me contar quem são essas pessoas 😉

  • Reply
    Glória Carvalho
    November 6, 2017 at 12:36 pm

    Oh não interessa! É realmente complicado fazê-las entender a tua (nossa) perspectiva! Mas sabes apesar de ser cansativo e de até provavelmente não conseguir convencer chego ao fim ainda mais em linha contigo e com a certeza de que estás no caminho certo! 🙂

    • Reply
      Filipa Maia
      November 6, 2017 at 12:39 pm

      Sim, isso é que é o mais importante! E também percebi muito rápido que não vale a pena tentar convencer ninguém: ou percebem logo ou nem vale o esforço. Quem chegar lá tem de chegar sozinho mesmo =)

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