Motivação e Mudança Mudar de vida

Sobre o medo, decisões de vida e o que aprendi quando saltei de uma ponte

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Há uns anos saltei de uma ponte.

 

Foi uma atividade de uma daquelas caixas de experiências, tipo Odisseias. Gosto de atividades radicais e basicamente, o racional para escolher aquela atividade entre todas as possíveis da caixa que tínhamos foi ser o mais radical possível. Achámos que saltar de uma ponte seria difícil de bater.

 

Fomos para o local algo ansiosos e quando lá chegámos a ansiedade apenas continuou a aumentar. Enquanto que o R. quis ser logo o primeiro a saltar, eu fui-me deixando ficar para o final. Achei que ver algumas pessoas a irem à minha frente iria deixar-me mais confiante. Não fui mesmo a última porque também não queria começar a ver pessoas a desistirem e a voltarem para trás. Por isso, deixei ir os mais corajosos e passadas umas dez pessoas (saltavam duas de cada vez) avancei.

 

Foi uma das experiências mais fascinantes da minha vida. Já contava com o nervosismo mas não estava à espera de algumas das reações fisiológicas que se seguiram. O coração mesmo muito acelerado, o estômago às voltas apesar de já ter a digestão mais do que terminada, a respiração tão rápida que parecia que tinha acabado de correr dez quilómetros. Enquanto o instrutor me colocava o arnês, pensava que nunca tinha sentido algo assim. E não tinha. Foi o momento mais intenso de toda a minha vida. Lá passei para o lado de fora da grade, pronta para saltar e evitei olhar para baixo.

 

E saltei.

 

Simples assim.

 

O truque está em esvaziar completamente a mente, perceber que todas as reações do nosso corpo fazem parte de um instinto de sobrevivência inato que existe para nos proteger. O nosso corpo tenta dizer “não faças isso, saltares de uma ponte não é uma boa ideia! vai correr mal!” Mas o teu lado racional tem de perceber que tens um arnês agarrado ao corpo, que há uma corda que não te vai deixar cair e que tudo vai correr bem. Que estás seguro. No fundo, só consegues saltar se perceberes que o teu lado racional, neste caso em específico, está mais certo do que o teu instinto animal.

 

Temos muito a agradecer ao nosso instinto de sobrevivência. Mas também temos de perceber quando é que ele é desnecessário no mundo moderno, em que não andamos propriamente a ser atacados por leões todos os dias.

 

Recentemente apercebi-me que quando precisas de tomar uma decisão importante – não a de saltar de uma ponte, mas uma decisão que muda a tua vida mais a fundo – o teu cérebro funciona exatamente da mesma forma que o teu corpo. Não tens uma reação fisiológica tão forte, mas tal como o teu corpo quando tentas saltar de uma ponte, também o teu cérebro tenta convencer-te que aquilo é uma má ideia. No momento da decisão, o teu cérebro relembra-te de todas as coisas que podem correr mal – mesmo que antes disso tenhas andado a sonhar com tudo o que pode correr bem. Relembra-te também de todas as tuas limitações – mesmo que antes tenhas passado dias a pensar em todas as coisas maravilhosas de que és capaz. Tenta ainda convencer-te que tu afinal até estás bem – mesmo quando tens a certeza, há meses, que algo precisa de mudar.

 

O teu cérebro sabe – tu sabes – que estás a correr um risco. E o teu cérebro cede ao instinto de sobrevivência e tenta convencer-te a não correr esse risco. O resto depende de ti. Estás disposto a correr esse risco? Estás pronto para dar o salto? Se estiveres realmente preparado, tal como se estiveres realmente pronto para saltar da ponte, vais ignorar o instinto de sobrevivência e vais saltar.

 

Penso que vem daí a importância de enfrentar os medos. Não só os medos mais significativos e importantes, mas também os mais pequenos. Quando falo nos mais pequenos refiro-me não só àqueles que acarretam um medo moderado, mas também àqueles que apesar de um medo gigante, não têm consequências significativas – como saltar de uma ponte. Só assim vamos habituar o nosso cérebro a lutar contra o instinto de sobrevivência e a ir em frente mesmo apesar do medo. Só assim vamos saber reconhecer as reações do nosso organismo e compreender que elas não se justificam nem fazem sentido no mundo de hoje.

 

Ainda bem que saltei daquela ponte há tantos anos…

 

Depois de saltar da ponte, a sensação foi de liberdade e de concretização, até de invencibilidade. Depois de passares por aquilo, sentes, literalmente, que és capaz de qualquer coisa. Há uma descarga de adrenalina brutal que rapidamente passa, mas a sensação de invencibilidade dura muito tempo. Nos meses – ou mesmo anos – seguintes dás por ti com dúvidas se és capaz de fazer qualquer coisa, mas rapidamente te lembras “mas eu já saltei de uma ponte, também sou capaz de fazer isto”. E é maravilhoso.

 

Depois de tomares uma decisão de vida, a sensação não é bem a mesma. É parecida no imediato, a descarga de adrenalina dá-se na mesma. Mas enquanto que, no salto da ponte, a única consequência real é o salto da ponte em si, numa mudança deste género as consequências são muito maiores. E não são imediatas. Tu sabes, lá no fundo, que vai correr bem, mas ainda não viste a concretização da tua decisão. E isso pode ser muito duro.

 

Além disto, precisamente porque as consequências não são imediatas, são muitos os que vão duvidar de ti. Imagina que saltavas de uma ponte e só passados uns meses saberias se te estatelaste no chão ou se a coisa correu bem. Imagina que tens uma audiência de pessoas que estão à espera para ver se te esbarras ou se sobrevives. Imagina aquilo que vai na cabeça das pessoas. Há aquelas que vêem o óbvio “ela tem uma corda agarrada ao arnês, não há perigo, vai correr bem”. Mas também há as que pensam “não, isto não vai correr bem, as pessoas não podem, simplesmente, saltar de pontes”. Estes últimos são os que estão demasiados agarrados ao seu instinto de sobrevivência, ainda não perceberam que saltar de pontes é algo que algumas pessoas gostam de fazer e que, por isso mesmo, arranjaram mecanismos para poderem fazer isso sem se estatelarem no chão. Ainda não perceberam que a vida no mundo de hoje é diferente da vida na savana – ou da vida de há quarenta anos – e que nem sempre temos de dar ouvidos ao nosso instinto de sobrevivência.

 

A verdade é que não faz mal. A verdade é que cada um percebe as coisas a seu tempo – alguns nunca chegam a perceber, e não faz mal nenhum. O importante, o mais importante no meio disto tudo, é não te deixares afetar pelas realidades dos outros. São as realidades deles, não a tua. A tua é diferente. A tua realidade é a tua realidade, é totalmente independente da realidade dos outros, e é a única que importa. Importa confiares no teu arnês e na tua corda de segurança. Importa confiares nas tuas próprias capacidades para ultrapassares qualquer obstáculo, mesmo quando os outros duvidam que sejas capaz. Por isso, se sabes que és capaz, não hesites, não desistas, não dês um passo na direção oposta àquela que sabes ser a mais indicada para ti. Vai em frente. Confia em ti.

 

Só tu és capaz de dar o salto.

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6 Comments

  • Reply
    ju
    August 7, 2017 at 5:15 pm

    obrigada! que texto incrível, incrível, incrível!

    • Reply
      Filipa M.
      August 7, 2017 at 11:13 pm

      Obrigada! Fico mesmo contente =)

  • Reply
    Inês Lopes
    August 9, 2017 at 12:37 am

    Adorei este texto 🙂 A parte em que referes a importância de enfrentar os medos fez-me lembrar o 100 days without fear (http://100dayswithoutfear.com/). Não sei se conheces mas a autora enfrentou um medo por dia durante 100 dias para criar uma certa habituação. Também há uma ted talk 🙂

    • Reply
      Filipa M.
      August 9, 2017 at 6:31 am

      Que bom que gostaste, Inês! Sim, já ouvi falar desse desafio há uns tempos. Mas ainda bem que me recordaste, acho que vou voltar a ver a Ted talk 😉

  • Reply
    Margarida Melo
    August 13, 2017 at 4:21 pm

    Tenho 17 anos (quase metade de ti) e também sinto esse medo imenso das mudanças que se avizinham (sobretudo relacionadas com a mudança para a idade adulta). Morro de medo de não escolher bem o curso, de acabar a fazer alguma coisa de que não goste verdadeiramente, de fazer as escolhas erradas, de me afastar demasiado da família… sei lá! E quanto mais penso no assunto, à medida que a data se aproxima, mais medo tenho de falhar.
    Nunca saltei de uma ponte, mas nestes momentos de medo gosto de pensar de todas as vezes em que enfrentei pessoas que mais ninguém tinha coragem de enfrentar, de todas as vezes que andei em carroceis horríveis na feira ou nalgum parque de diversões.
    Nunca saltei de uma ponte… mas espero um dia saltar
    https://blog-flor-mar.blogspot.pt/

    • Reply
      Filipa M.
      August 13, 2017 at 4:40 pm

      Olá, Margarida. Muito obrigada pelo teu comentário. Percebo esse medo, também o tive. Também percebo agora que não havia motivos para tal. Sei que é fácil dizer isto agora, mas acredita quando te digo que o que escolheres agora não tem de ditar o resto da tua vida. A certa altura, eu soube exatamente o que queria: o que queria estudar, o que queria fazer, o tipo de trabalho que queria. E estava certa: era mesmo o que eu queria. Mas pensava que o ia querer para sempre, e não foi isso que aconteceu. Eu sei que não é fácil, mas não vejas a escolha que terás de fazer aos 18 como uma escolha para a vida toda. Vais sempre a tempo de mudar, se assim o entenderes. Já lá vão os tempos em que se escolhia uma coisa e tinha de se fazer o mesmo para o resto da vida. Faz-me dois favores: se ainda não o fizeste, lê este post (e ouve o respetivo podcast):https://deixaser.pt/conselhos-que-gostaria-de-ter-recebido-aos-20-anos/ e, por favor, continua desse lado. Acho que vais gostar de algumas coisas que tenho planeadas para o blog =) E já agora, continua a praticar essa tua coragem, sem medo de falhar: falhar é uma coisa boa, mesmo! Quanto mais não seja, faz-te perceber que falhar não é o fim do mundo 😉

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