Motivação e Mudança Mudar de vida

Joseph Campbell e a Jornada do Herói – O poder da narrativa para mudar o mundo

No último post, apresentei-vos o Tom Bilyeu e falei-vos da sua missão: no fundo, e pelas minhas próprias palavras, essa missão é levar as pessoas a um mindset de crescimento e ajudá-las a libertarem-se de crenças limitantes através da narrativa, uma vez que a narrativa é a melhor forma do ser humano assimilar informação verdadeiramente disruptiva. Mas hoje vamos analisar este assunto com (um pouco) mais de detalhe: poderá mesmo a narrativa mudar o mundo?

 

Jornada do herói

 

O artigo de hoje está inserido no projeto ACMA – A Cultura Mora Aqui, um projeto que pretende trazer a cultura de volta à bloggosfera e à vloggosfera, através de tópicos mensais ou bimestrais e consequentes artigos sobre temas como cinema, séries, músicas, livros, decoração, tecnologia, e outras coisas interessantes.

 

acma

 

O tema deste mês é Maneiras de Mudar o Mundo e eu decidi aproveitar este tópico para falar sobre um tema que já queria trazer ao blog há algum tempo e que, por acaso, encaixa mesmo bem após o artigo que publiquei no início desta semana.

 

A Narrativa

Comecei a estudar a teoria relacionada com a estrutura narrativa clássica há mais de dois anos, quando comecei a escrever ficção pela primeira vez. Com este estudo, todo um novo mundo se abriu perante os meus olhos, ao qual nunca tinha dado a devida atenção.

 

Sim, é óbvio que já tinha reparado que os filmes e livros, principalmente os mais comerciais, passam todos (tendencialmente) por pontos e momentos semelhantes ao longo da história, mas nunca tinha dado a devida atenção a este assunto.

 

E a verdade é que por muito que por vezes seja frustrante as histórias parecerem todas iguais (ou, pelo menos, muito parecidas), isto acontece porque é mesmo assim que as histórias funcionam. E é claro que quanto menor o esforço do(s) autor(es) para serem mais criativos e fugirem aos estereótipos, mais evidente essa estrutura se vai tornar. Há formas, no entanto, de seguir uma estrutura narrativa convencional e mesmo assim acabar com uma história original e até surpreendente.

 

Para quem não está muito por dentro do mundo da escrita de ficção, deixem-me começar por explicar uma coisa. Há, mais ou menos, dois tipos de escritores: os que planeiam as suas histórias antes de efetivamente se sentarem para começar a escrever e os que simplesmente começam a escrever e deixam que a história se vá desenrolando. Digo que há “mais ou menos” dois tipos de escritores porque, no fundo, isto funciona como um espectro: podes planear até ao mais ínfimo detalhe e só depois começar a escrever, ou podes não planear absolutamente nada e deixar que as palavras e as ideias vão saindo, ou podes encontrar-te em qualquer ponto intermédio entre estes dois extremos. Por exemplo, podes saber o início e o final da história, mas não tens nada planeado pelo meio, ou podes até saber o início, o final e ainda a situação de tensão máxima – ou o clímax. Como podem ver, um dado autor pode estar em qualquer ponto ao longo deste espectro entre planear/não planear a história.

 

Mas porque estou a explicar isto? Porque uma coisa é certa: quer o autor planeie ou não a sua história antes de se sentar para escrever, vai sempre ter de, a dado ponto do seu processo, dar atenção à estrutura narrativa da sua história. Se planear tudo antes, então será nessa altura que adequará a sua história à típica estrutura narrativa. Se não planear nada, o mais certo é que na fase da edição vá fazer alguns ajustes para que a história bata certo com a estrutura narrativa desejável.

 

Para quem não faz ideia de como é a estrutura narrativa, muito resumidamente ela segue os seguintes pontos:
(AVISO: SPOILERS do Harry Potter e a Pedra Filosofal, mas, a sério, há alguém que ainda não tenha lido este livro ou, pelo menos, visto o filme!?)

1 – Exposição – em que nos são apresentados os personagens e a sua situação inicial
pensem no Harry Potter que vive no vão das escadas com os tios e o primo que não o suportam

2 – Um conflito, inciting incident, trigger, ou gatilho – algum acontecimento que provoca uma disrupção da realidade e leva ao desenrolar das história
pensem no Harry Potter que descobre que é feiticeiro e vai para Hogwarts

3 – Escalar da ação ou rising action – em que a tensão vai aumentando porque está cada vez mais em risco
continuando com o paralelismo do Harry Potter, reparem como primeiro ele chega a Hogwarts, que é um mundo totalmente diferente mas, aparentemente, ainda seguro, é revelado que há um corredor interdito aos alunos, apresentando a primeira noção de perigo, aparece um troll que deixa todos os alunos em risco, no jogo de Quidditch alguém (supostamente o Snape) enfeitiça o Harry, mostrando que há um perigo específico direcionado a ele, depois encontram o Fluffy, o cão com as três cabeças e quase são apanhados pelo Snape, de seguida quando vai ao castigo na Floresta Proibida, vê alguém a beber sangue de unicórnio, que mais tarde vimos a descobrir ser o Voldemort – penso que com isto já dá para ter uma ideia do que é o escalar da ação

4- Clímax – o ponto de tensão máxima da história
finalmente, vão atrás da Pedra Filosofal, acabando o Harry por enfrentar o Voldemort na nuca do Quirrell

5 – O descer da ação ou falling action – em que a tensão começa agora a descer
Harry acorda no dormitório e percebe que está tudo bem

6 – A resolução
há uma festa, uma mudança nos pontos, os Gryffindor ganham a taça e tudo está bem

 

Como podem ver, aquela que é provavelmente a história mais famosa dos nossos tempos, e que ninguém pode acusar de falta de originalidade, segue perfeitamente a estrutura narrativa clássica. Esta é uma tradução muito simplificada. Para além de tudo isto, estas fases distribuem-se por atos (tipicamente são três), há indicações mais ou menos rígidas da percentagem que cada uma destas fases deve ocupar na história, há pontos de viragem que determinam a transição entre atos, há um ponto médio… já estão a ver como o assunto se pode tornar bastante complexo.

 

Mas voltemos ao essencial: afinal porque é que virtualmente todas as histórias seguem aproximadamente esta estrutura? Acreditem ou não, por causa do nosso instinto de sobrevivência. Como assim, perguntam vocês? Imaginem um tempo em que não havia registos – daquilo que aconteceu, de quem fez o quê, de como se deve fazer determinada tarefa. Nessa altura, a informação era passada oralmente e sempre que era contada uma história – sobre qualquer coisa que tivesse acontecido a alguém – seria importante que todos prestassem atenção, ou perderiam (talvez para sempre) aquela informação, que poderia muito bem ser essencial para a sua sobrevivência – como “eu fui naquela direção e fui atacado por um leão” ou “ele comeu uma baga de determinada cor e de repente morreu”.

 

Desta forma, os nossos cérebros adaptaram-se a este tipo de interação e o ato de alguém começar a contar uma história tornou-se um gatilho para despertar a nossa atenção. A questão é que para que isso aconteça, convém que nós consigamos identificar uma história, e é por isso que estamos basicamente “treinados” para ficarmos colados – ao ecrã, ao livro, ao que alguém está a contar – quando uma história é bem contada – ou seja, quando segue uma determinada estrutura

 

Há mais fatores psicológicos que estão relacionados com a atração que todos sentimos por histórias e não consigo estar a tocar em todos. Mas outro exemplo rápido que posso dar é-nos contado neste artigo do Eric Barker, que fala de um estudo que demonstrou que quanto mais as crianças sabiam sobre a sua história familiar, mais controlo tinham sobre as suas vidas, tinham também uma auto-estima mais elevada, bem como uma maior crença no bom funcionamento das suas famílias
(já agora, ainda não conhecem o Eric Barker? eu era capaz de ficar horas e horas a ler o blog dele!).

 

Além disso, se já alguma vez se interessaram por criação de conteúdos ou por técnicas de como discursar melhor ou fazer melhores apresentações, com certeza já ouviram a dica do storytelling. Esta dica é dada porque as audiências ficam mesmo mais atentas quando começamos a contar uma história. Por isso, se estivermos a fazer uma apresentação muito técnica, por exemplo, e notarmos que a nossa audiência está quase a adormecer, inserir uma pequena história (relacionada com o tema, claro) será sempre uma boa técnica. É também por isso que muitos artigos de autores conhecidos, mesmo que relacionados com temas técnicos, começam com uma pequena história: é isso que prende as pessoas e as motiva para ler o resto do artigo. Os motivos são exatamente os mesmos!

 

Mas voltando à estrutura narrativa, há vários livros que ensinam escritores de ficção a utilizar uma estrutura narrativa correta nos seus trabalhos. A maior parte deles baseia-se na hero’s journey ou jornada do herói, um conceito também conhecido por monomito e formulado por Joseph Campbell.

 

Quem foi Joseph Campbell?

Joseph Campbell nasceu em 1904, nos Estados Unidos da América e começou por estudar biologia e matemática na universidade, mas rapidamente percebeu que gostava mais das humanidades e acabou por licenciar-se e literatura inglesa e medieval. Após um período de estudos na Europa e de uma tentativa falhada de fazer um doutoramento, inicia-se a parte realmente interessante da sua vida: durante cinco anos ele decidiu estudar de forma independente e basicamente viveu de forma quase isolada numa cabana, onde passava o seu tempo a ler. Mais tarde ele explicou como eram passados os seus dias: dividia as horas que passava acordado em quatro blocos de quatro horas cada e passava três desses blocos a ler, e o bloco restante constituía tempo livre. Durante cinco anos!

 

Em 1934, aceitou um lugar como professor universitário em Nova Iorque, onde casou e viveu a maior parte da sua vida. Era apaixonado por psicologia e antropologia, e tornou-se um grande conhecedor das teorias desenvolvidas por Sigmund Freud e especialmente Carl Jung, cujo trabalho, principalmente a teoria dos arquétipos (segundo a qual há elementos, estes arquétipos, que se repetem nas histórias e que estão gravados não só no nosso subconsciente, como também no inconsciente coletivo), influenciou significativamente as teorias desenvolvidas por Campbell (já lá vamos).

 

Durante os anos imersivos que Campbell passou a ler, percebeu que todas as histórias mitológicas seguiam a mesma estrutura narrativa, principalmente no que toca a um dos arquétipos: o do herói. Assim nasceu a teoria da jornada do herói (mais sobre isto já a seguir).

 

Em 1949, Campbell publicou aquela que permanece a sua obra mais marcante “The Hero with a Thousand Faces“, exatamante sobre a sua grande conclusão de que todas as histórias mitológicas contam o percurso de um mesmo herói, apenas adaptada ao contexto cultural em que estão situadas, e que não só introduziu o conceito da jornada do herói, como também o estudo da mitologia comparativa, que relata o impulso do ser humano para criar e consumir histórias que têm como base os mesmos temas universais.

 

Campbell também atribui diversas funções aos mitos, descritas no seu livro “The Masks of God: Creative Mythology“, que passam por funções metafísicas, cosmológicas, sociológicas e pedagógicas.

 

No entanto, o seu trabalho mais popular intitula-se “The Power of Myth“, e é tanto uma série documental como um livro baseado nessa mesma série. Na série, Campbell conversa com o jornalista Bill Moyers, ao longo de seis episódios (cinco dos quais filmados no Skywalker Ranch do George Lucas, na Califórnia), sobre temas como a jornada do herói, as mensagens dos mitos, storytelling, sacrifício e bliss.

 

Os Princípios de Joseph Campbell

Através dos trabalhos de Joseph Campbell, principalmente da série documental de entrevistas, é possível tirar algumas conclusões sobre princípios interessantes nos quais ele baseou a sua vida. Os mais importantes serão os seguintes:

 

1 – Lê, lê, lê

Sit in a room and read–and read and read. And read the right books by the right people. Your mind is brought onto that level, and you have a nice, mild, slow-burning rapture all the time.

 

Como poderá ser evidente, pelos cinco anos que passou quase exclusivamente a ler, Campbell recomenda que passemos muito do nosso tempo a ler. Eu não poderia concordar mais!

 

2 – Tem o teu espaço sagrado

You must have a room, or a certain hour or so a day, where you don’t know what was in the newspapers that morning, you don’t know who your friends are, you don’t know what you owe anybody, you don’t know what anybody owes to you. This is a place where you can simply experience and bring forth what you are and what you might be. This is the place of creative incubation. At first you may find that nothing happens there. But if you have a sacred place and use it, something eventually will happen.

 

Uma instrução importante de Campbell passa por olhar para dentro, estar em silêncio e em solidão, meditar, sem qualquer input do mundo exterior.

 

3 – Follow your bliss

Follow your bliss and doors will open where there were no doors before.

 

Esta noção de follow your bliss era algo a que ele dava especial atenção e à qual foi dado bastante destaque na série documental “The Power of Myth”.

 

4 – Aprende as regras para poderes quebrá-las

If you go to a master to study and learn the techniques, you diligently follow all the instructions the master puts upon you. But then comes the time for using the rules in your own way and not being bound by them…You can actually forget the rules because they have been assimilated. You are an artist. Your own innocence now is of one who has become an artist, who has been, as it were, transmuted… You can’t have creativity unless you leave behind the bounded, the fixed, all the rules.

 

Algo que também se ensina aos escritores (e, como diz o Campbell na citação acima, aos artistas em geral) é que devem conhecer muito bem a teoria, por exemplo, como já falámos antes, a estrutura narrativa clássica, mas que devem saber quando quebrá-la se fizer sentido para a sua obra.

 

5 – Amor fati

There is an important idea in Nietzsche, of Amor fati, the “love of your fate,” which is in fact your life. As he says, if you say no to a single factor in your life, you have unravelled the whole thing. Furthermore, the more challenging or threatening the situation or context to be assimilated and affirmed, the greater the stature of the person who can achieve it. The demon you can swallow gives you its power, and the greater life’s pain, the greater life’s reply.

 

Esta é uma ideia transmitida por Nietzsche, tal como Campbell refere, mas também muito associada à filosofia estóica. O livro do Ryan Holiday, “The Obstacle is the Way“, por exemplo, foca-se totalmente na ideia de que os obstáculos são, na realidade, algo de bom e constituem a única forma de progredirmos na vida e no nosso desenvolvimento pessoal.

 

6 – Sê persistente

Não tenho uma citação para esta, mas ela está refletida em toda a jornada do herói e é uma das coisas de que Campbell fala no documentário: se queres fazer algo, o que quer que seja, tens de estar disposto a falhar primeiro, só depois vais encontrar o sucesso. Quando os alunos iam ter com ele e lhe perguntavam se ele achava que seriam capazes de fazer algo, por exemplo, tornar-se escritores, ele respondia “se fores capaz de o fazer durante 10 anos sem qualquer sucesso e sendo totalmente ignorado, para apenas depois alguém reparar em ti, então sim, serás capaz”. Mas já vão perceber melhor como isto está refletido na jornada do herói.

 

A Jornada do Herói

A já famosa jornada do herói trata-se de um percurso por etapas, que (segundo Campbell) todos os heróis percorrem. Esta jornada apresenta a forma de um círculo, sendo que o herói acaba novamente no seu ponto de partida (literal ou figurativamente) mas tendo sofrido uma transformação.

 

1 – The Call to Adventure – o herói recebe uma chamada para o desconhecido (Harry recebe carta para Hogwarts)

2 – Refusal of the Call – obrigações ou medo impedem o herói de iniciar a jornada (o tio não quer deixar Harry ir)

3 – Supernatural Aid – um ajudante mágico (mais uma vez, este “mágico” pode ser figurativo) aparece ou revela-se (Hagrid chega, entrega carta em mãos e ameaça o tio)

4 – Crossing the First Threshold – o herói abandona o seu mundo conhecido e aventura-se no mundo desconhecido (Harry vai às compras na Diagon Alley)

5 – Belly of the Whale – último estágio de separação para o mundo novo (comboio para Hogwarts)

6 – The Road of Trials – o herói tem de passar uma série de testes para iniciar a sua transformação (já vimos atrás os vários testes por que o Harry passa ao longo do ano)

7 – Meeting with the Goddess/Love – o herói experiencia amor incondicional (Harry vê os pais no “mirror of erised”)

8 – Temptation – o herói enfrenta uma tentação que vai desviá-lo do objetivo principal (depois de ver os pais no espelho, Harry volta várias vezes para “estar” com eles, perdendo a noção da realidade)

9 – Atonement with the Hero’s Father – o herói tem de se confrontar com a pessoa que exerce o mais elevado poder sobre a sua vida (encontro e luta com Voldemort no final)

10 – Peace and Fulfillment Before the Hero’s Return – a vitória (sensação de bem-estar e de satisfação quando percebe que tudo está bem)

11 – The Ultimate Boon – consegue os objetivos (Voldemort “destruído”, Hermione e Ron estão bem, taça ganha pelos Gryffindor)

12 – Refusal of the Return – depois do sucesso, é difícil ao herói voltar ao ponto inicial (não é com muita animação que Harry volta para Privet Drive)

13 – Magic Flight – por vezes, a viagem de regresso é tão mágica e cheia de aventura como a viagem de ida (novamente no comboio de Hogwarts)

14 – Rescue from Without – por vezes o herói precisa de um salvador

15 – Return – regresso ao ponto inicial, com sabedoria acrescida (regresso ao convívio com os tios)

16 – Master of Two Worlds – e herói consegue equilíbrio entre os dois mundos (o seu mundo exterior e o interior)

17 – Freedom to Live – o herói liberta-se do medo da morte, tendo maior liberdade para viver.

 

A jornada do herói é mais tipicamente aplicável em géneros como fantasia ou aventura, já que traduz essencialmente uma busca por algo (“quest“), mas também se podem encontrar elementos da jornada do herói em géneros trágicos ou de romance, por exemplo.

 

Em adição a isto, Campbell defendia que se nós próprios formos o herói dentro das nossas vidas, também teremos um percurso de vida semelhante à jornada do herói, que é o que vemos tipicamente acontecer a quem tem grandes breakthroughs de desenvolvimento pessoal ou muda, de alguma forma (e não precisa de ser radicalmente) a sua vida.

 

Aqui podem encontrar um bom esquema da jornada do herói, para quem preferir informação mais visual.

 

The Power of Myth

Como já expliquei, Campbell defendia que as histórias mitológicas têm quatro funções distintas:

 

Myth basically serves four functions. The first is the mystical function,.. realizing what a wonder the universe is, and what a wonder you are, and experiencing awe before this mystery…The second is a cosmological dimension, the dimension with which science is concerned – showing you what shape the universe is, but showing it in such a way that the mystery again comes through… The third function is the sociological one – supporting and validating a certain social order… It is the sociological function of myth that has taken over in our world – and it is out of date… But there is a fourth function of myth, and this is the one that I think everyone must try today to relate to – and that is the pedagogical function, of how to live a human lifetime under any circumstances.

 

Com esta sua visão, Campbell defende que o framework cultural da narrativa mitológica pode ser usado para ensinar aos jovens como passar pelos diferentes estágios da vida. Campbell também discute que a importância cada vez mais diminuta que damos, nos dias de hoje, a histórias mitológicas, assim como a rituais, pode estar relacionada com a crescente prevalência de jovens que se sentem perdidos no mundo e sem saber muito bem como hão de viver as suas vidas.

 

Myths are clues to the spiritual potentialities of the human life.

 

No fundo, e segundo a visão do autor, todos os mitos existem para nos ensinar. Ensinar algo sobre nós, sobre os outros, sobre como viver. Ele defende que os mitos nos mostram o enorme potencial da vida e que todos nós podemos ser e fazer mais.

 

I always feel uncomfortable when people speak about ordinary mortals because I’ve never met an ordinary man, woman or child.

 

Disruption Through Narrative

Voltemos então à premissa deste artigo: será verdade que a narrativa pode mudar o mundo?

 

É mesmo verdade que o ser humano apresenta uma capacidade aumentada de assimilar informação importante e disruptiva quando esta é transmitida através da narrativa, ou seja, na forma de histórias?

 

Olhando para tudo o que está para trás, penso que podemos concluir que sim. Mas vamos a um exemplo bastante simples, que talvez possa ilustrar isso mesmo: vocês sentem-se mais inspirados para mudar algo nas vossas vidas quando alguém vos diz como podem fazê-lo e vos dá dicas práticas, ou quando vêem a história de alguém que já passou por essa mudança (seja ela qual for)? Com qual situação se sentem mais emocionalmente ligados? Aposto que é com a história e, se responder por mim, sei que as histórias são muito mais eficazes a transmitirem-me esse tipo de ensinamentos.

 

Um facto interessante relativamente a esta premissa de mudar o mundo através de histórias de ficção: um dos franchises que mais seguidores reúne pelo mundo inteiro é altamente baseado na jornada do herói de Joseph Campbell: “Star Wars”. E isto não foi, de todo, um acidente. Na verdade, o George Lucas desenvolveu um fascínio pelo trabalho de Campbell logo enquanto estudante de cinema e diz-se que ele já tinha terminado os dois primeiros rascunhos de “Star Wars” quando, anos mais tarde da primeira leitura, re-descobriu “The Hero with a Thousand Faces”, acabando por re-estruturar toda a história para que esta fosse fiel à jornada do herói. Também é do conhecimento geral que a estrutura do filme “The Matrix” é baseada na jornada do herói. E já conseguimos perceber que também o Harry Potter toca nos pontos todos.

 

Posto tudo isto, acredito que a ficção e a narrativa podem mudar o mundo? Acredito que algumas histórias têm a capacidade de mudar algumas pessoas e que talvez possa vir a existir uma história – um mito moderno? – que tenha a capacidade de mudar muitas pessoas e, assim, mudar o mundo.

 

Mas, acima de tudo, acredito que todos mudamos um bocadinho sempre que consumimos um pedaço de ficção que nos toca de alguma forma. Acredito também que é por isso mesmo que muitos de nós somos viciados em livros, ou em filmes, ou em séries: pelas emoções que estes nos permitem sentir a partir do conforto do nosso sofá. São também estas emoções e a possibilidade de as transmitir aos leitores que me fazem querer escrever ficção, mas ficção com significado, com mensagens e ensinamentos mais ou menos importantes.

 

E vocês, porque lêem ficção ou porque vêem filmes? Há alguma história que vos tenha mudado? E já conheciam a jornada do herói e o trabalho de Joseph Campbell? Fico à espera de respostas nos comentários (se é que chegaram até ao fim deste artigo que, honestamente, não esperava que ficasse tão longo! Obrigada a quem leu tudo!)

 

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Se também tiverem interesse em participar no ACMA, contactem a organização através do e-mail acma.cultura@gmail.com Se acharem este projeto interessante podem ainda visitar a página de Facebook e ver o que os outros participantes andam a escrever. Podem ver a minha participação anterior neste projeto aqui.

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2 Comments

  • Reply
    Daniela Oliveira
    January 30, 2018 at 11:39 pm

    Adorei, adorei, adorei! Lembro-me de ter falado de Campbell durante uma aula de marketing digital, mas não tinha percepção da riqueza da sua teoria! Fiquei mesmo curiosa, obrigada por esta leitura fenomenal! 🙂

    • Reply
      Filipa Maia
      January 30, 2018 at 11:44 pm

      Que bom! Fico mesmo contente que haja mais alguém tão fascinada com estas coisas como eu 🙂

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