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Como aplicar a filosofia estóica para ser mais feliz nas redes sociais

Filosofia Estóica

 

Ultimamente tenho visto muitas pessoas a queixarem-se das redes sociais. Que é tudo perfeito, que as pessoas só mostram o lado bom da vida, e que ver isto os deixa “deprimidos” e desiludidos com as suas próprias vidas, por não serem perfeitas, e por terem problemas.

 

Vejo, cada vez mais, este tipo de queixas online, tal como também já as ouvi pessoalmente.

 

Tenho de confessar que não concordo nada com isto nem me revejo nestas opiniões. E passo a explicar porquê.

 

Primeiro: se sabes que as pessoas só mostram as coisas boas e as partes bonitas das suas vidas mas que, no fundo, também têm os seus problemas e momentos menos bons, então porque te incomoda tanto aquilo que elas mostram online?

 

Não entendo. Todos sabemos que não há vidas perfeitas, que todos temos os nossos problemas, que a vida nunca é apenas cor-de-rosa e cheia de coisas boas. Pode até ser só esse o lado que vês nas redes sociais, mas se sabes que o resto também existe, porque deixas que isso te incomode?

 

Segundo: sempre foi assim! Ou acham mesmo que antes de haver redes sociais, as pessoas falavam de tudo com toda a gente? Que falavam tanto das coisas boas e como dos problemas? Vão dizer-me que há 20 anos e sem redes sociais, quando se juntava um grupo grande de amigos, ou quando as pessoas chegavam ao trabalho à segunda-feira, começavam logo a contar os problemas?

 

Se estivessem com problemas no casamento ou com os filhos, iam falar disso de imediato? Se estivessem em sarilhos financeiros, iam espalhar isso aos sete ventos?

 

Desculpem, mas não acredito. Acredito que acontecesse se estivessem apenas com amigos ou familiares muito próximos, com quem se sentissem à vontade para falar de tudo. Caso contrário, simplesmente não me parece plausível. As pessoas sempre fizeram questão – e vão continuar a fazer – de mostrar o lado melhor das suas vidas ao resto da sociedade.

 

E não sei se já repararam, mas nas nossas redes sociais não estão só os nossos amigos mais próximos: está toda a gente que conhecemos (e, em alguns casos, pessoas que nem conhecemos)! Então porque iríamos falar de coisas que não falaríamos com um grupo de amigos mais alargado?

 

Raya was here@rayawashere

 

Terceiro: informação negativa afeta-nos negativamente. A sério que queres mesmo ser bombardeado nas redes sociais com os problemas dos outros? Não te bastam os teus?

 

Dou um exemplo muito em voga nos dias de hoje: são muitas as pessoas que já desistiram de ver as notícias (fyi, eu sou uma delas). Já vários estudos demonstraram que ver as notícias tem um impacto psicológico negativo: por exemplo, aqui, aqui e aqui.

 

E acreditem que se houver uma notícia verdadeiramente importante, de alguma forma, as pessoas que não vêem as notícias vão ficar a saber, não precisam de se preocupar! Mas para quê estar a martirizar-me com coisas negativas todos os dias? (e é óbvio que me preocupo com vários dos problemas do mundo, mas não é ver as notícias que resolve algum deles).

 

Então se todos partilhássemos os nossos problemas nas redes sociais, talvez o efeito fosse que mais pessoas abandonariam as ditas cujas, tal como cada vez há mais pessoas a deixarem de ver as notícias. Mas eu falo por mim: não frequento as redes sociais para estar constantemente a ser confrontada com os problemas – e, já agora, com as queixas – das outras pessoas.

 

Quarto: tu controlas a forma como reages. Sabes isso, certo?

 

Eu não me sinto deprimida por ver a felicidade dos outros. Eu não me sinto deprimida por estar em Lisboa e até estar frio e a chover e, ao mesmo tempo, aparecer no meu feed do Instagram uma foto de alguém que está numa praia paradisíaca em Bali ou nas Caraíbas. Não! Quando muito, eu sinto-me inspirada.

 

Eu adoro seguir contas de pessoas que viajam por todo o mundo. Primeiro, porque são bonitas. Depois, dão-me ideias para futuras viagens. Além disso, nada nem ninguém me impede de fazer o mesmo se eu quiser. E saber que, por acaso, viajar pelo mundo o tempo que eu quiser até é um dos meus objetivos e que estou a trabalhar para isso, é suficiente para não me sentir minimamente afetada pelas fotos que vejo. Isso até se pode tornar na minha realidade apenas daqui a 10 anos ou 20, não sei, mas sei que estou a trabalhar e a dar todos os dias o meu melhor para conseguir a minha vida ideal, por isso não é a vida ideal dos outros que me vai afetar.

 

Se sabes que estás a trabalhar para teres a tua vida ideal, mesmo que ainda não a tenhas, porque te deixas afetar pelas vidas dos outros?

 

Ou não estás a trabalhar para isso? (talvez esteja na hora de começares…)

 

Ou não sabes, sequer, qual é a tua vida ideal? (talvez esteja na hora de descobrires…)

 

Ou sabes mas achas que não é possível? (talvez esteja na hora de começares a acreditar…)

 

Jéssica Silva@jessssilvaa

 

E quinto: Também precisas de ter problemas.

 

As redes sociais incomodam-te porque vês a vida teoricamente perfeita dos outros e não tens a tua? Pensa lá melhor…

 

É que até podes, um dia, vir a ter a tua vida ideal, mas não vais deixar de ter problemas nem momentos menos bons. E não faz mal nenhum e até é bom que assim seja! São os problemas e os momentos menos bons que nos fazem dar valor às coisas boas da vida. Porque haverias de querer ter uma vida perfeita? Para tudo o resto perder o seu valor?

 

 

Espero que não me chicoteiem por estas opiniões, já que toda a gente parece ter opiniões contrárias e sentir-se muito ofendido em relação às aparentes vidas perfeitas das redes sociais.

 

Por isso, fica o aviso: se te sentes incomodado pelo que escrevi para trás, pára de ler já, ou prepara-te porque vou aprofundar este assunto ainda mais.

 

Mais especificamente em relação ao ponto nº 4, tu controlas a forma como reages: eu já falei sobre este tópico aqui e ele está intimamente ligado à filosofia estóica, tema que me apaixona e no qual tenho vindo a mergulhar nos últimos anos.

 

Para quem não sabe, a filosofia estóica, ou o estoicismo, foi fundada em Atenas por Zeno de Citium no início do século III a.C. Esta filosofia foca-se na ética pessoal e, de acordo com os seus ensinamentos, o caminho para a felicidade humana encontra-se em aceitar cada momento tal como ele se apresenta, não permitindo que sejamos controlados pelo nosso desejo por prazer nem pelo nosso medo da dor, e tratando os outros de forma justa.

 

Há umas duas ou três semanas, partilhei este artigo no meu Facebook:

 

Artigo

 

É, basicamente, um curto guia – muito resumido – sobre a filosofia estóica. Toca em vários pontos importantes e quem nunca antes ouviu falar deste tipo de pensamento terá aqui uma boa introdução, em apenas alguns minutos de leitura.

 

Quando estava a ler este artigo, rapidamente me veio à memória este assunto das redes sociais e percebi que muitos destes pontos da filosofia estóica podem ser aplicados a este tópico. E então, foi mesmo isso que decidi fazer.

 

 

13 Princípios da Filosofia Estóica aplicados ao consumo nas redes sociais

 

Se continuarem a ler vão encontrar a forma como eu vejo que alguns princípios da filosofia estóica, retirados diretamente deste artigo que partilhei, podem ser aplicados ao consumo das redes sociais:

 

1 – “Não podemos controlar acontecimentos mas podemos controlar o que eles significam”

Nas redes sociais: não controlas o que os outros publicam, mas podes controlar o significado que atribuis às suas publicações.

 

Podes começar por convencer-te a ti próprio que ninguém está a tentar atacar-te quando publica algum momento muito bom. Não, na verdade, não tem nada a ver contigo. Tu não sabes porque aquela pessoa publicou aquilo, tanto pode ser porque está infeliz e necessita de aprovação externa, como por estar imensamente feliz e querer partilhar esse sentimento, ou qualquer outro estado entre estes dois. Não sabes nem precisas de saber. Não tem nada que ver contigo!

 

Um momento perfeito de outra pessoa significa que a tua vida não é boa o suficiente? Só significa isso se tu o deixares, se tu não conseguires interpretar de outra forma.

 

2 – “As perturbações à tua serenidade não podem ser evitadas”

Nas redes sociais: não vais conseguir evitar totalmente os momentos bons vividos pelas outras pessoas.

 

Tranquility can never be reached by avoiding or blocking out distractions or horrible events. The way to get to that tranquil place is through your choices and judgment about those events and situations.

 

No outro dia, ouvi numa meditação guiada que estava a fazer que não podemos exigir o silêncio para conseguirmos meditar. Poucas vão ser as situações em que vamos conseguir estar em silêncio total. Se deixarmos que o ruído nos impeça de meditar, poucas vão ser as oportunidades para isso acontecer. Temos, isso sim, de aprender a viver com o ruído e a meditar mesmo assim. Mesmo que seja mais difícil.

 

Aqui é a mesma coisa. Podes excluir das tuas redes as pessoas que parecem ter as vidas mais perfeitas, mas acredito que ou eliminas toda a gente ou continuará a haver partilha de momentos bons, e enquanto não aprenderes a lidar com eles, não vais conseguir manter-te imune a pensamentos negativos.

 

Raya was here@rayawashere

 

3 – “Habitua-te a olhar para dentro”

Nas redes sociais: a tua reação ou o teu sentimento em relação àquilo que os outros publicam tem mais a ver com a pessoa que tu és do que com a pessoa que publicou.

 

Já pensaste porque motivo tens essa reação às publicações dos outros? Eu também não sei, não estou dentro da tua cabeça. Mas uma coisa posso garantir: a origem dessas emoções não está em quem publica, está em ti próprio.

 

4 – “A raiva não te vai ajudar”

Nas redes sociais: em vez de te irritares com a vida aparentemente perfeita das pessoas que segues, inspira-te.

 

A sério, enquanto não modificares a forma como reages a isto, como interpretas estas partilhas de momentos bons, vais continuar a ser infeliz nas redes sociais.

 

5 – “Proteges tudo, porque não proteges a tua mente?”

Nas redes sociais: aprende a não deixares que influências externas afetem o que vai na tua cabeça.

 

You don’t give away your wallet to a stranger on the street. You don’t hand the keys to your car over to a budding thief. You wouldn’t let your house be demolished by the council without a fight. So why would you hand over the keys to your mind so easily to any stranger who wants them?

Vais mesmo deixar que outras pessoas tenham influência no teu estado de espírito? Não deixarias que eles chegassem e decorassem a tua casa, ou escolhessem a tua comida, ou os livros que vais ler e as roupas que vais vestir. Porquê deixares que controlem os teus pensamentos e as tuas emoções?

 

travel in her shoes@travel_inhershoes

 

6 – “A tua mente transforma-se naquilo em que consistentemente pensas”

Nas redes sociais: A tua mente transforma-se naquilo em que consistentemente pensas.

 

Associar negatividade e pensamentos negativos a estas coisas só vai trazer mais negatividade para a tua vida (passando as várias redundâncias).

 

7 – “Não sabes tudo”

Nas redes sociais: nunca sabes tudo sobre a vida de uma pessoa.

 

Já o disse em cima: não é por as pessoas apenas mostrarem o lado bom da vida que têm vidas perfeitas, até porque isso não existe. Não sabes o que mais se passa na vida destas pessoas, nem porque escolhem mostrar o que mostram nas redes. Então não faças uma interpretação com base em apenas uma pequena fração das suas vidas!

 

8 – “Pensa nos teus problemas em comparação com o universo”

Nas redes sociais: a forma como te sentes com o conteúdo que consomes nas redes não é assim tão importante para o resto do mundo.

 

É mesmo isso: ninguém está a pensar especificamente em ti quando publica (a não ser que tenhas um stalker, talvez), e ninguém está preocupado com as emoções negativas que vais ter em relação às suas publicações. Get over it!

 

9 – “Não fiques sentado na bancada. Sê, também tu, inspiracional”

Nas redes sociais: faz das tuas redes sociais aquilo que tu quiseres!

 

Publica o que tu quiseres nas tuas redes sociais e se também tu quiseres mostrar apenas o lado bom da tua vida, então força, faz isso! Ninguém se vai chatear contigo.

 

alliemtaylor@alliemtaylor

 

10 – “Não existe um fim na jornada de desenvolvimento pessoal”

Nas redes sociais: tudo isto é um trabalho em progresso.

 

Se habitualmente te deixas afetar negativamente por publicações que outras pessoas fazem, não acredito que isso vá mudar de um dia para o outro. Vai ser preciso treino, mas estou convencida que se estiveres disposto a adaptar o teu pensamento, vais conseguir evoluir no sentido de apenas te sentires inspirado e não ameaçado ou irritado.

 

11 – “Não tornes a tua vida mais complicada. É uma escolha tua”

Nas redes sociais: Não tornes a tua vida mais complicada. É uma escolha tua.

 

Só depende de ti. Mais uma vez, porque nunca é de mais dizer isto: a tua reação SÓ depende de ti.

 

12 – “Vai à procura dos obstáculos”

Nas redes sociais: rodeia-te de inspiração.

 

Mesmo que ainda não te sintas inspirado pelas vidas “perfeitas” dos outros, se estiveres disposto a treinar e a adaptar a tua atitude, então a forma mais eficiente de o conseguires é mesmo rodeando-te desse tipo de estímulos. Sempre que vires uma das publicações que costuma deixar-te irritado ou frustrado, tenta adaptar esse pensamento e sentir-te inspirado. Quanto mais vezes o fizeres conscientemente, mais fácil se irá tornar, até acabar por ser automático e inconsciente.

 

13 – “Tens apenas um dever: ser um bom ser humano”

Nas redes sociais: Tens apenas um dever: ser um bom ser humano.

 

Eu fico genuinamente feliz com a felicidade dos outros. Porque haveria de ser diferente nas redes sociais?

 

Sejam mais felizes.

 

Raya was here@rayawashere

 

E tu, o que pensas sobre este assunto?

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