Escrita Leitura e Escrita

Faz isto se quiseres ser mais criativo

Só muito recentemente percebi, finalmente, qual foi o principal medo que me levou, durante anos, a bloquear com atividades criativas e a fugir delas. O mais engraçado é que esta realização não aconteceu por ter percebido algum conceito novo, mas sim por ter juntado algumas coisas que já tinha percebido.

 

mais criativo

 

O meu problema com a criatividade e as atividades criativas (artísticas?) é que a sua qualidade é altamente subjetiva. Por isso mesmo, o trabalho criativo está sempre muito sujeito à crítica externa e é isso que me tem mantido afastada. Não lido (não lidava?) muito bem com a crítica.

 

Como já falei por aqui, fui sempre uma criança (adolescente, jovem…) muito certinha. Demasiado certinha. Não estava, por isso, habituada a ser criticada. Raramente me chamavam a atenção ou me ralhavam, o que sempre foi muito confortável, não vou mentir. Para acrescentar a isto, eu era muito boa no meu trabalho (e o meu trabalho era estudar). Por isso, aconteceu naturalmente que as poucas críticas a que estive sujeita enquanto crescia não eram tanto críticas ao meu trabalho, mas à minha pessoa. Nessa altura, a única crítica que alguma vez tive ao meu trabalho (que era “má” a Português) fez com que fugisse dessa área a toda a velocidade. As outras críticas, a mim e à minha personalidade, apenas fizeram com que fosse ainda mais difícil lidar com a crítica. Já enquanto trabalhadora numa empresa e até há bem pouco tempo, quando falhava no trabalho – e todos nós falhamos, é inevitável – ficava a sentir-me mesmo mal. Ficava com uma sensação de incompetência que não é, de todo, justificável. Hoje sei que sou muito boa naquilo que faço mas todos nós falhamos, mesmo os muito bons.

 

No trabalho criativo, é impossível fugir à crítica. Em primeiro lugar, como disse em cima, porque a sua qualidade é altamente subjetiva. Aquilo que para uns é muito bom, para outros pode não ter qualidade nenhuma. Depois, porque quando fazemos qualquer trabalho criativo, queremos inevitavelmente satisfazer a noção de qualidade de pelo menos algumas pessoas. Pelo que se não estivermos abertos à crítica, será impossível melhorar a qualidade do nosso trabalho.

 

Se eu detestava lidar com a crítica, porque faria algo que mesmo sendo excelente para certas pessoas, seria também inevitavelmente muito mau para outras? Pelo menos na matemática, a resolução de uma equação está certa ou errada, não há grande subjetividade.

 

Exibir o nosso trabalho criativo pode ser extremamente duro. Se não tivermos uma carapaça dura e forte, vamos, com certeza, sair magoados. Se não estivermos preparados para agradar a alguns mas não a todos, vamos sofrer sem necessidade. Se não estivermos abertos a receber feedback negativo (ainda que, de preferência, construtivo), nunca vamos conseguir melhorar ainda mais o nosso trabalho. Se não conseguirmos perceber que uma crítica ao nosso trabalho não é equivalente a uma crítica à nossa pessoa nem diz nada sobre o nosso valor enquanto seres humanos, vamos sentir-nos abalados sempre que o nosso trabalho não seja do agrado de todos. Ou seja: sempre que criarmos.

 

Por isso é fundamental expores o teu trabalho à crítica, tão frequentemente quanto possível. Não cries em segredo, não escondas aquilo que fazes, nem esperes até que esteja “perfeito” para partilhares o teu trabalho com o mundo exterior. Melhor ainda, mentaliza-te que “perfeito” não existe, ou que mesmo que na tua cabeça esteja “perfeito”, outros vão achar que não está bom o suficiente. Habitua-te à ideia que em qualquer atividade criativa nova que inicies, o teu trabalho provavelmente não vai ser excelente à partida. E não há problema nenhum. É um “work in progress”. Só com a prática podes melhorar. E se estiveres disposto a aceitar a crítica sem a interpretares como uma ofensa pessoal, mais rapidamente vais crescer. Quantas mais vezes o fizeres, maior vai ser a tua capacidade de aceitar as críticas como algo que só te pode ajudar.

 

É também por isso que a jornada do auto-conhecimento nunca tem fim. Eu sempre pensei que não era criativa. Pensava também que tinha seguido uma área científica apenas porque era para isso que tinha mais “jeito”. Só parando para pensar em nós e na pessoa que somos é que é possível perceber que, muitas vezes, as nossas escolhas de vida têm justificações bem mais profundas do que inicialmente conseguimos perceber.

 

Agora peço-te: por favor, partilha algo que TU tenhas criado nos comentários abaixo. Sem medo da crítica.

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8 Comments

  • Reply
    Ana Catarina Pombo
    September 4, 2017 at 12:54 pm

    Sem duvida que o que criei enfrentando as críticas foi o blog. Criei há pouco tempo e no mundo dos “jovens” quem começa de baixo e não fica logo “grande” é rebaixado e até mesmo gozado. Sei que muitos jovens da minha cidade devem gozar comigo por ter criado o meu cantinho, mas já me importei mais com isso.
    Talvez o meu maior defeito e o que me fez deixar de fazer certas coisas, coisas que de facto queria muito, foi o medo de ser avaliada…
    Beijinhos

    • Reply
      Filipa M.
      September 4, 2017 at 11:28 pm

      Obrigada por partilhares, Ana. Sim, quando a crítica não é construtiva, a melhor coisa a fazer é mesmo ignorar e continuar com o teu trabalho =)

  • Reply
    Glória
    September 4, 2017 at 1:22 pm

    Comecei o meu pequeno blog por incentivo teu! Ao contrário de ti sempre acharam (e eu também um bocadinho confesso) que tinha jeito para a escrita! Fui para matemática e apesar do que se possa pensar exige muita criatividade (há muitas formas de resolver uma equação com a mesma solução :-)), até mesmo para “escrever” as demonstrações! Sentia falta de escrever o que sinto, escrever para mim o que tantas vezes penso sem falar e senti o mesmo que tu descreves, apoio incondicional de alguns, completa indiferença de outros… mas descobri que o faço essencialmente para mim, que me faz sorrir, independentemente da qualidade ou dada vontade de os escrever de outra forma se fosse hoje! Isto que hoje vou criando tornou-me uma pessoa mais completa, mais feliz!

    • Reply
      Filipa M.
      September 4, 2017 at 11:30 pm

      Eu concordo contigo, e também acho que para se fazer ciência (matemática ou outra) é preciso ter criatividade, mas aqui estou a falar de outro tipo de criatividade. Não sei muito bem o que distingue as duas, mas para mim são “criatividades diferentes”, digamos assim. Mas também concordo que exercer esses vários tipos de criatividade nos torna mais completos e essa é uma sensação maravilhosa =)

      • Reply
        Glória Carvalho
        September 6, 2017 at 11:28 pm

        Talvez tenha já experimentado diversos tipos de criatividade: a música, o teatro… até mesmo quando estou a dar aulas!!! Para mim sou criativa quando dou o meu toque às músicas, quando transformo algo que faço, quando as pessoas o passam a associar a mim! Vá temos que começar aquele projecto criativo que falámos já há algum tempo! 😉

  • Reply
    Xiá
    September 4, 2017 at 10:47 pm

    Acho que a minha maior crítica sou eu mesma, o que trás as suas vantagens mas também desafios.
    Há aqueles dias em que sinto que nada serve, que nada presta e que estou melhor quieta no meu canto. Acontece-me, maioritariamente, na escrita.
    É duro mostrar o nosso trabalho e, principalmente, enfrentarmo-nos a nós próprios mas, como disseste ajuda-nos a evoluir e a criar defesas, a aceitar o nosso trabalho.

    • Reply
      Filipa M.
      September 4, 2017 at 11:33 pm

      Eu penso que a auto-crítica também é muito importante, afinal, se ainda não estamos satisfeitos com o nosso trabalho é porque sabemos que ainda temos margem para melhorar. Isso só se torna um problema quando o levamos ao exagero, ou seja, quando se traduz no perfecionismo. O importante é que não é preciso que seja perfeito para poder ser partilhado com o mundo, até porque lá está, nas atividades criativas, o perfeito não existe 😉

  • Reply
    #BCReads No. 1 - Bloggers Camp
    September 10, 2017 at 3:38 pm

    […] “Faz isto se quiseres ser mais criativo” – Deixa […]

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