Motivação e Mudança Mudar de vida

Decidir o teu futuro num mundo em constante mudança

mundo em constante mudança

 

Ao longo deste verão, tenho reparado em muitos jovens (sim, que eu já sou uma velha de 32 anos!) com algumas dificuldades e muita ansiedade por estarem prestes a ter de decidir o que vão estudar na faculdade. Quando me deparo com estas dificuldades, penso de imediato em duas coisas bem diferentes.

 

A primeira é a dificuldade que eu própria tive quando foi a minha altura de escolher. O quanto aquela decisão me atormentou e me tirou o sono durante meses. O curioso é que hoje consigo perceber que não precisava de ter sido assim. Algumas das coisas que me preocupavam naquela altura não tinham qualquer razão de ser (como por exemplo, “e se eu não for boa o suficiente para tirar este ou aquele curso?”, o que é só parvo).

 

Mas mais importante do que isso, e a segunda coisa em que penso quando me deparo com estas situações, é que hoje percebo que o curso que escolhi aos 18 anos não precisa de definir o resto da minha vida, e isso é também verdade – é ainda mais verdade – para quem está a escolher um percurso universitário hoje.

 

Penso que grande parte do problema está na forma como se costuma colocar a pergunta. “O que queres ser quando fores grande?” e as crianças crescem a pensar que têm de escolher uma coisa para serem o resto da vida. Depois transformam-se em jovens que vivem sob uma enorme pressão para tomarem a decisão correta e escolherem um único caminho, mesmo que tenham muitos interesses e gostassem de fazer muitas coisas.

 

Faz falta perceber que não há mal nenhum em mudar e que aquilo que fazemos não define a pessoa que somos.

 

Vivemos hoje num mundo em constante mudança, mudança essa que tem vindo a acontecer de uma forma exponencial. Da mesma maneira que já há duas ou três décadas ninguém espera ficar no mesmo lugar, na mesma empresa, uma vida inteira, como seria típico há uns 50 anos, hoje já poucas pessoas esperam ter a mesma carreira durante toda a sua vida.

 

Se da geração dos “baby boomers” para as primeiras camadas dos Millennials se tornou normal mudar de emprego a cada 5 anos, hoje, para as últimas camadas de Millennials e para a Gen Z, torna-se cada vez mais normal mudar completamente de profissão, por vezes para áreas completamente diferentes e talvez até duas ou três vezes ao longo das suas carreiras. Isto deve ser visto, cada vez mais, como normal.

 

Já pensaram na quantidade de empregos novos que são criados com o evoluir dos tempos e que não existiam no passado? Tal como as grandes mudanças que o mundo está a sofrer, também a criação desses novos empregos é exponencial. Houve, com certeza, muitos empregos criados na segunda metade do século XX que não existiam antes, a maior parte dos quais ligados às novas tecnologias. No entanto, nos últimos 10 a 15 anos o surgimento de novos empregos tem sido muito mais acentuado. Se não acreditam, deixo-vos alguns exemplos de empregos/carreiras que não existiam há apenas 10 ou 15 anos:

  • App developer
  • Gestor de redes sociais
  • Especialista em marketing digital
  • User experience designer
  • Especialista em cloud computing
  • Analista ou cientista de “big data
  • Gestor/Especialista em sustentabilidade
  • Youtuber / Blogger
  • Operador de drone
  • Assistente virtual

 

Eu escolhi o meu curso há 14 anos. Porque tenho eu de continuar presa àquilo que escolhi naquela altura se há hoje tantas outras possibilidades que eram antes totalmente inexistentes? E se nos últimos 15 anos surgiram todas estas opções, quem sabe o que nos reservam os próximos 10 anos?

 

Há também, a acrescentar a isto, o facto de alguns trabalhos se terem tornado bem mais acessíveis. Por exemplo, para se ser fotógrafo hoje em dia, já não é preciso ter um laboratório de revelação, qualquer um pode escrever um livro e publicá-lo de forma independente sem ter de ser previamente aprovado e aceite por uma editora, e é perfeitamente possível aprender código e a construir websites e software exclusivamente através de recursos online.

 

Para além disto, também as características que são valorizadas hoje em dia no mercado de trabalho são bem diferentes das que o eram há umas décadas. Hoje, a maior parte dos empregadores procura colaboradores com as seguintes características:

  • Criatividade
  • Capacidade de pensar holisticamente
  • Boa capacidade de mudança / Adaptabilidade
  • Boa capacidade de gestão de desafios
  • Independência
  • Capacidade de análise de dados e pensamento crítico
  • Storytelling
  • Rapidez de aprendizagem

 

Mas não importa apenas aquilo que os empregadores querem: importa também – ou mais – aquilo que a força de trabalho quer. Estima-se hoje que em 2020 (daqui a apenas 3 anos!) metade de população trabalhadora dos Estados Unidos será freelancer. As prioridades dos trabalhadores passam hoje muito mais por:

  • Independência de localização
  • Flexibilidade de horários
  • Possibilidade de escolha dos projetos em que querem trabalhar

 

Muito se tem falado dos Millennials e do facto de querermos coisas bem diferentes da geração dos nossos pais, mas penso que se formos além disso e pensarmos também na Gen Z (e quem está a entrar agora na universidade já pertence à Gen Z), então ainda mais prevalecentes se tornam estes valores, em oposição à estabilidade de um emprego das 9 às 5 ou de uma garantia de “emprego para a vida”.

 

Bem, tudo isto para dizer que gostava que os jovens não colocassem tanta pressão sobre si próprios na escolha de um curso. É praticamente impossível saberem o que os vai motivar daqui a 10 anos, para além de ser impossível prever de que forma o mundo vai mudar, quais os empregos que vão deixar de existir – ou ser substituídos por robôs ou inteligência artificial – e quais os novos que se vão inventar. É importante perceberem que uma escolha aos 18 anos não impede uma mudança de direção mais tarde.

 

Se fosse eu a ter de escolher hoje, e sabendo aquilo que sei, provavelmente seguiria um caminho bem diferente. Para começar, faria um “gap year” antes de ir para a universidade (quando eu tinha 18 anos nem sequer se falava disto, quase que não existia esta opção), para explorar o mundo e as minhas opções, fazer voluntariado e conhecer-me melhor. Alguém convencionou, há muitos anos, que se entra para a universidade aos 18 anos, mas não há nenhuma lei que a isso obrigue e não é por tirarem tempo para vocês e por começarem a universidade um pouco mais tarde que vos vai ser retirado qualquer valor – muito pelo contrário, esse tipo de auto-consciência é cada vez mais valorizado, mesmo pelos potenciais empregadores.

 

Depois provavelmente escolheria um curso bastante genérico que me permitisse posteriormente especializar-me em algo mais específico para a primeira fase da minha carreira, bem como flexibilidade para mudar de direção sempre que quisesse e achasse que fizesse sentido. Aproveitaria também os anos de universidade para aprender outras skills profissionalizantes “on the side”, essencialmente ligadas ao digital (web development, web ou user experience design, marketing digital, gestão de e-commerce, etc), e tentaria arranjar, ainda durante esse período, algum trabalho enquanto freelancer nessas áreas, para depois da conclusão do curso poder fazer um novo “gap year” – mas desta vez, com a possibilidade de continuar a trabalhar como freelancer e estender esse “gap year” por tanto tempo quanto me fizesse sentido.

 

Isto é o que faz sentido para mim hoje em dia – e é radicalmente diferente daquele que foi o meu percurso (but hey, no regrets here! – até porque vou sempre a tempo). Não terá de ser igual para todos, mas o importante é mesmo que cada um pense por si, saiba o que quer e perceba aquilo que mais faz sentido no seu caso, incluindo que se quiser fazer muitas coisas, haverá tempo para todas elas ao longo da vida.

 

Sugiro então que deixemos de perguntar às nossas crianças “O que queres ser quando fores grande?” e passemos a perguntar “Que coisas gostavas de fazer quando cresceres?”

 

Dentro deste tópico, deixo aqui alguns recursos que podem ser úteis: um texto meu, complementado por um episódio de um podcast que podem encontrar aqui, e um projeto que me parece fascinante e que demonstra bem como é importante – e possível – explorar várias opções antes de fazer uma escolha definitiva – ou semi-definitiva, já que são muito poucas as escolhas na vida que não têm retorno. Se tiverem interesse em trabalho remoto e/ou freelancer, recomendo ainda que visitem o site Nomadismo Digital Portugal, onde poderão encontram uma enorme variedade de artigos com recursos e dicas sobre como começar.

 

 

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12 Comments

  • Reply
    Sandra
    September 20, 2017 at 11:25 am

    Concordo plenamente Filipa! Aliás, encontro-me numa situação de mudança neste momento, aos 30 anos. Tirei o meu curso há 8 anos e nunca trabalhei na área. Cheguei a um ponto em que era impossível continuar a trabalhar como administrativa conforme estou agora. Tinha mesmo de mudar e fazer algo que realmente gostasse e por isso decidi investir num curso de marketing digital! Irá terminar no próximo mês, pelo que conto em breve mudar finalmente de carreira! Quantas vezes mudamos de ideias e de opinião? Ninguém tem a obrigação de pensar da mesma forma ou de fazer o mesmo toda a vida!

    • Reply
      Filipa M.
      September 20, 2017 at 11:31 am

      Olá, Sandra! Estamos em situações parecidas. Eu terminei o curso há 9 anos, o doutoramento há 4, e estou a trabalhar na minha área. Mas mesmo assim, mudei muito e quero mudar de área – e mais importante ainda, de estilo de vida, e também vou iniciar um curso de marketing digital (e mais umas coisinhas!). Brevemente falarei mais sobre isso aqui no blog. É tão bom mudar! Muito boa sorte para essa nova carreira, não tenho dúvidas de que vais ser muito bem sucedia =)

  • Reply
    beatrizcoutomua
    September 20, 2017 at 12:22 pm

    Texto muito interessante. Acredito que irá ajudar muitas pessoas.
    Beijinhos
    http://www.beatrizcouto.com

    • Reply
      Filipa M.
      September 20, 2017 at 1:09 pm

      Obrigada, Beatriz! Espero bem que sim =)

  • Reply
    Ana Beatriz Monteiro
    September 20, 2017 at 2:56 pm

    Adorei o post, acredito que muita gente ao ler se vai identificar 🙂
    Beijos,
    http://i-dreamer-girl.blogspot.pt/2017/09/ideias-de-outfits-para-primeira-semana.html

    • Reply
      Filipa M.
      September 20, 2017 at 3:00 pm

      Obrigada! Espero que sim =)
      Beijinho

  • Reply
    Inês Lopes
    September 20, 2017 at 8:04 pm

    Desconhecia o spinoff project e achei uma ideia genial, se estivesse a sair do ensino secundário era isso mesmo que faria, experimentar uma profissão por mês durante um ano antes de entrar na universidade. Gostei muito do post 🙂

    • Reply
      Filipa M.
      September 21, 2017 at 9:14 am

      Obrigada, Inês! Também o encontrei por acaso e pareceu-me uma ideia brilhante. Por muito que tentemos imaginar o que será exercer uma certa profissão, só mesmo entrando nela e executando durante uns tempos é possível perceber realmente se gostamos ou não, por isso também adorava ter feito algo do género =)

  • Reply
    ritamartins
    September 21, 2017 at 12:32 pm

    Optimas recomendações para qualquer Millennial e pessoa que está a entrar na faculdade. Não ter medo do futuro, e saber que o futuro não é estanque. Para mim o lema da vida é “há sempre solução”. Qualquer caminho pode ter uma outra curva 😉

    • Reply
      Filipa M.
      September 22, 2017 at 7:13 am

      É bem verdade, Rita. Apesar de todos crescermos a pensar que vamos ser uma única coisa para o resto da vida, cada vez mais raros são os casos em que isso acontece e ainda bem que assim é. É tão bom mudar =)

  • Reply
    Krystel
    September 24, 2017 at 4:47 am

    Excelente artigo, Filipa! Mais do que passarmos por uma escolha, na minha opinião, demasiado cedo, a questão do curso universitário ainda acarreta essa questão de estar associada com algo definido…quando não o tem que ser!
    É como tu bem dizes: falta perceber que não há mal nenhum em mudar e sobretudo que as coisas não precisam de ser definitivas, até porque estamos sempre em constante evolução.

    Abraço nómada,

    – Krystel https://www.nomadismodigital.pt

    • Reply
      Filipa Maia
      September 24, 2017 at 1:14 pm

      Obrigada, Krystel! Ainda bem que gostaste =) É isso mesmo, o dia em que pararmos de evoluir há de ser um dia muito triste 😉

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