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Como escrever um livro em 12 passos – parte 2

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(créditos da imagem: Green Chameleon)

 

Podem ler a primeira parte aqui.

 

Agora vamos à melhor parte. Os próximos três passos constituem a parte mais importante da escrita de um livro, porque sem um bom manuscrito, todos os outros passos se tornam inúteis.

 

4 – Escrever o primeiro rascunho

Depois dos 3 passos anteriores (ou 2, se decidirem não definir à priori a estrutura) a seguir é escrever. E escrever. E escrever mais um bocadinho. Escrever até chegarmos ao final.

 

É neste passo que muitas pessoas ficam presas quando decidem escrever um livro. É que sejamos sinceros: escrever um livro é difícil! Para começar, vai ser um texto mais longo do que qualquer coisa que alguma vez tenhamos escrito (pelo menos para a maior parte de nós, e na maior parte das vezes, significativamente mais longo). Escrever dezenas de milhares de palavras requer tempo. Tempo que a maior parte de nós acha que não tem, mas que se realmente quisermos fazer isto, vamos conseguir encontrar. Requer esforço e dedicação e perseverança.

 

A maior parte das vezes vamos achar que aquilo que estamos a escrever não presta para nada. Isso acontece porque muito provavelmente aquilo que estamos a escrever não presta para nada. Sim, é mesmo verdade, pelo menos quando estamos a começar. Mas há uma coisa que já li em dezenas de sites sobre escrita e também numa mão cheia de livros sobre o mesmo tópico: os primeiros rascunhos não prestam para nada. Quer seja o nosso primeiro livro ou o décimo. Claro que se espera que o décimo seja ligeiramente melhor do que o primeiro – ou não, pode depender muito do processo de cada escritor; imaginemos um escritor para o qual o processo que melhor funciona é escrever o primeiro rascunho no mais curto período de tempo possível; provavelmente o primeiro rascunho do seu décimo livro não será muito melhor do que o primeiro rascunho do primeiro livro; e não há problema nenhum; o mais importante aqui é o seguinte: nenhum primeiro rascunho alguma vez escrito ou que alguma vez venha a ser escrito à face de Terra é publicável. Não é, ponto.

 

Os primeiros rascunhos servem para assentar ideias e para transformarmos a nossa história em algo palpável. Os livros que lemos não se fazem nos primeiros rascunhos, fazem-se nas revisões. As histórias fazem-se nos primeiros rascunhos (e mesmo assim podem ainda sofrer alterações), mas os livros fazem-se nas revisões. E não há problema nenhum com isso. É mesmo assim e quanto mais depressa aceitarmos que aquilo que estamos a escrever no primeiro rascunho não presta para nada, mais facilmente vamos conseguir avançar com ele, terminar o malvado do primeiro rascunho e avançar para as revisões para o transformar em algo bonito e que dê prazer a ler.

 

Por isso, nesta fase, não pensem em mais nada: simplesmente escrevam. Escrevam todos os dias se conseguirem, escrevam o mais rapidamente possível, e é aqui que a estrutura previamente definida ajuda imenso, permitindo-nos continuar a escrever sem ter de parar para pensar no que vai acontecer a seguir: isso já está definido na nossa estrutura.

 

5 – Deixar o primeiro rascunho repousar

(YAY, já cheguei ao passo 5 do meu primeiro livro!)

 

Quando acabarem o primeiro rascunho, imprimam-no, guardem-no em 3 pendrives diferentes, num disco externo e na cloud – no onedrive, na dropbox, enviem para vocês próprios por e-mail (de preferência todas as anteriores). O que quer que tenham de fazer para garantir que não existe a mínima possibilidade de perderem o vosso rascunho (nem quero imaginar a depressão) – aliás, façam isto tudo enquanto escrevem também, não apenas no final.

 

E depois não olhem para ele durante pelo menos duas semanas, idealmente um mês. Tentem nem sequer pensar no assunto. Se prosseguirem logo com a leitura do manuscrito, vai logicamente soar-vos a algo que vocês próprios escreveram (porque foram mesmo vocês que escreveram!). Isto não é bom. Vai soar-vos mal, vai parecer uma porcaria (quase como aquela sensação de ouvir uma mensagem de voz que nós próprios deixámos a outra pessoa) e não vão ter o distanciamento necessário para terem um espírito crítico. Passadas umas semanas, já não se vão lembrar muito bem daquilo que fizeram e quando iniciarem a leitura vai parecer-vos algo mais próximo de apenas um manuscrito qualquer. Vão conseguir mais facilmente cortar aquilo que é necessário cortar e alterar aquilo que precisa de ser alterado.

 

Este é uma boa altura para começarem a pensar na vossa história seguinte, fazerem brainstorming de ideias, se já souberem o que querem escrever a seguir talvez possam até aproveitar para desenvolver essa ideia e irem trabalhando na estrutura. Façam o que for preciso para esquecerem o vosso primeiro rascunho. Vão depois conseguir voltar a ele com uma cabeça muito mais fresca.

 

6 – Rever o que foi escrito

A verdade é mesmo esta e volto a repetir: os livro que lemos não se “fazem” durante a escrita. Fazem-se durante as revisões. No fundo, o processo de escrita do primeiro rascunho tem mesmo o único objetivo de passar a história para o papel. Não importa como. Não importa a qualidade da escrita. Importa chegarmos ao fim com uma história em forma palpável.

 

Depois então é que vamos pegar na nossa história e melhorá-la. E o processo de revisão é diferente para cada escritor, há inúmeras formas de o fazer, nenhuma delas correta o errada. Apenas importa que a cada ronda de revisão vamos melhorando o nosso manuscrito.

 

Dito isto, o mais comum é começar-se por olhar para a história global, para a narrativa. Convém reler toda a história e ver se tem todos os pontos de viragem necessários e se eles ainda fazem sentido no contexto global da história, ver se as motivações dos personagens estão bem demonstradas, se os personagens evoluem com a história. Se temos cenas que não servem para nada e por isso precisam de ser cortadas, ou pontos da narrativa que precisam de mais uma cena para fazer a ligação entre dois momentos diferentes. Para isso, o mais aconselhado é ler o primeiro rascunho do princípio ao fim enquanto vamos tirando notas de pontos a melhorar. Depois então, pegar nas nossas notas e trabalhar cada um dos pontos de melhoria que detetámos.

 

Depois de trabalhada a narrativa, há que prestar atenção a outros aspetos da escrita. Por exemplo, olhar primeiro para a descrição e para o diálogo e ver se precisam de melhorias, ou se temos demasiado de um e pouco do outro. Ver se há consistência ao longo da história, não só em termos de atitudes e comportamentos dos personagens, mas também consistência física (por exemplo, a minha casa fica a dez minutos a pé no trabalho no início e passados uns capítulos tenho de apanhar um comboio, um ferry e um autocarro para lá chegar) e de vocabulário (por exemplo, o nosso personagem começa a tratar certa pessoa por tu e lá para o meio da história há uma cena em que o trata por você). Podem parecer coisas parvas mas que acontecem com mais facilidade do que gostaríamos quando estamos a falar de um manuscrito de 300 ou 400 páginas escrito ao longo de meses (ou, por vezes, anos).

 

Na parte final da revisão, devem vir coisas mais pequenas (mas que ainda assim são importantes e dão muito trabalho) como construção frásica, vocabulário, typos.

 

Como podem imaginar, tudo isto pode acontecer ao longo de várias rondas de revisão e acaba por ser, por vezes, mais trabalhoso do que a escrita inicial em si (por isso, para as pessoa que seguem o Facebook do blog e viram na semana passada que acabei um primeiro rascunho, não pensem que o trabalho está terminado!). Tudo também depende da qualidade do primeiro rascunho, que, como disse atrás, tem tendência a melhorar com a experiência do escritor. Mas habitualmente, dá-se o conselho de que os escritores não se preocupem muito com a qualidade do primeiro rascunho precisamente porque i) se o fizerem vão acabar por bloquear e ii) tudo vai ser revisto várias vezes numa fase posterior.

 

 

A terceira e última parte será talvez a menos interessante, mas também é muito importante se de facto quisermos que a nossa escrita chegue a potenciais leitores.

 

(estou a escrever estes passos com um livro de ficção em mente, para não ficção alguns deles seriam consideravelmente diferentes)

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