Escrever

escrever

 

Sou cientista. É este o título do cargo que ocupo no sítio onde trabalho. Gosto de números. Tenho um fascínio pela Matemática desde sempre. A Química e a Física são-me naturais. Segundo a certidão de curso, sou Engenheira. Mais uma vez: números, máquinas, tecnologia, ciências exatas.

 

Tenho 31 anos. Aos 30 descobri que tenho uma enorme paixão pela escrita. Adoro escrever. E nada disto para mim faz sentido. Mas é a minha nova realidade.

 

Por muito estranho que a mim me possa parecer, já não consigo passar sem escrever. Já se tornou uma necessidade. E eu não consigo explicar. Não consigo explicar porque não consigo perceber. Nunca na vida tive dificuldades em explicar coisas a pessoas, já fui professora e até diziam que era das boas, mas quando nós próprios não conseguimos perceber algo, torna-se muito complicado de explicar.

 

Como é que isto só surgiu aos 30 anos? Como é que nunca antes tinha percebido que adoro fazer isto? Como é que só agora reparo que para me sentir completa tenho de escrever? Preciso de escrever.

 

Dizem que nunca é tarde e eu acredito. Porque mais vale agora do que nunca. Porque hoje sinto que estou (sou) completa. Talvez porque passo 8, 9, 10 horas do dia a trabalhar com ciência e outras duas ou três a trabalhar a criatividade. Talvez porque hoje me sinto (quase) tão à vontade com as palavras como com os números. Provavelmente porque ser uma mulher da ciência nunca seria suficiente para mim, porque tenho dois lados e ambos precisam de atenção.

 

Como já aqui referi, desde muito pequena que adoro ler. E várias vezes dei por mim a pensar “Será que eu também seria capaz de fazer uma coisa destas? De escrever um livro?” E talvez precisamente por ser uma criança/rapariga/mulher da ciência, toda a vida respondi a essas perguntas com um redondo não. “Não, nunca serias capaz porque não tens criatividade/imaginação suficiente.” E pronto, após esta auto-resposta, qual seria o maluco que ainda assim insistiria em escrever?

 

Quando era pequena e tinha dificuldades em adormecer, chamava a minha mãe, que estava na sala a ver televisão ou a ler. Às vezes ela vinha, outras vezes vinha o meu pai. E quando era o meu pai que vinha e eu dizia “Pai, não consigo adormecer.” o meu pai respondia-me sempre “Pensa num filme. Pensa em personagens e numa história e faz um filme na tua cabeça.” E eu fazia isso. Eu era sempre a personagem principal, sempre bem mais crescida do que na realidade daquele momento, e tinha amigos. Amigos que não eram os meus amigos, eram personagens imaginados, diferentes, e tinha também inimigos. E claro que havia sempre um amigo por quem eu me apaixonaria e tínhamos de passar por imensos percalços até conseguirmos ficar juntos. E por vezes, por muitas e variadas vezes, eu começava um filme naquele momento mas o meu filme transformava-se numa espécie de telenovela que durava algumas semanas. E todas as noites, antes de adormecer, eu ia juntando mais algumas cenas ao meu filme-telenovela, pensando em aventuras, conflitos, problemas, e ultrapassando cada um deles, qual heroína de série de televisão, acabando sempre num final muito feliz, digno de uma lágrima no canto do olho. E depois fui crescendo e fui deixando de chamar pelos pais quando não conseguia adormecer, mas fui continuando a fazer filmes na minha cabeça, quase até à idade adulta. E ao mesmo tempo, fui dizendo a mim mesma que nunca teria imaginação para escrever um livro, porque eu era uma pessoa muito lógica e muito pouco criativa. E também aqui nada disto faz sentido. Como é que eu nunca percebi que andava há anos a escrever livros na minha cabeça? Como é que nunca percebi que a criatividade e a imaginação estiveram sempre lá? Podem até ter adormecido a certa altura, mas está a revelar-se tão fácil acordá-las.

 

E hoje sou escritora. Ainda tenho algum receio de dizer isto, causa-me uma certa estranheza. Mas tenho vindo a trabalhar em acordar a minha criatividade e a minha imaginação e escrevo. E já não vivo sem escrever. Tenho um blog e estou a escrever um livro e tenho ideias para mais dois ou três livros e sou escritora.

 

E vou continuar a fazer contas e ciência durante o dia e a escrever à noite e ao fim de semana, porque cada moeda tem o seu reverso e eu gosto, e muito, de ter duas faces.

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