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    Wrap up #4 – Porque gosto de YA

    wrap up

     

    Desde o último wrap up que aqui partilhei, li quatro livros: um de não-ficção e três de ficção. Sim, voltei a render-me à ficção após vários meses a ler maioritariamente não ficção (dos 10 que li antes destes, apenas 3 foram de ficção), mas a verdade é que por muito que eu possa aprender ao ler livros de não ficção, eu sou mesmo apaixonada por histórias (não somos todos!?), por isso nunca consigo passar muito tempo sem ceder à ficção (e ainda bem!).

     

    Destes quatro, o de não-ficção foi o Pivot e já falei dele aqui, por isso hoje vou dedicar-me aos outros três, todos de ficção e todos YA. Porque sim, é verdade, sou totalmente viciada em YA (caso ainda não tenham reparado).

     

    [Para quem não sabe, e como já me perguntaram nas redes sociais quando falei no assunto, YA é Young Adult, ou seja, qualquer coisa como literatura juvenil. São habitualmente livros em que os personagens principais se situam algures entre os 14 e os 18 anos de idade, apesar de nem todos os livros com personagens entre estas idades serem considerados YA. Por exemplo, À Espera no Centeio, de J. D. Salinger, tem como personagem principal um adolescente e, no entanto, não é YA. Ou seja, a literatura YA é mais bem definida pela idade do público alvo a quem o livro é dirigido do que pela idade do personagem principal, apesar de, na maior parte dos casos, a idade do personagem principal ser um bom indicador.]

     

    Tenho investido algum tempo a tentar perceber porque gosto tanto de YA. A verdade é que há cada vez mais adultos que gostam de ler YA e isso não me choca nada. Também é um facto que a literatura YA tem assistido a uma explosão de novos autores desde o Harry Potter e, mais acentuadamente, desde o Twilight e o The Hunger Games, e como sabemos, nem sempre (aliás, muito raramente) quantidade é acompanhada de qualidade. Também eu já apanhei alguns livros YA que deixavam muito (mesmo muito!) a desejar, mas são muitos mais aqueles que adoro. Sei que isto também acontece porque já sei ser bastante seletiva em relação ao género e já só me deixo levar pela compra de determinado livro depois de já ter lido e ouvido um bom número de boas críticas sobre ele. O facto de assim ser e de apenas apostar nos que já tenho quase a certeza que vão valer a pena pode levar-me a ter uma opinião parcial em relação ao assunto. Mas eu prefiro que assim seja e vão continuar a ouvir-me dizer: a literatura YA de qualidade pode ser excelente!

     

    De qualquer forma, ainda não cheguei a uma grande conclusão em relação ao porquê da atração dos adultos para este género. Quando perceber posso falar sobre isso. Neste momento, o que posso afirmar é que este tipo de livros costuma ter personagens com atitudes, sentimentos e dramas bem mais exagerados do que em livros direcionados para adultos, e isto acontece precisamente porque eles são adolescentes e as histórias são dirigidas a adolescentes. E todos sabemos que os adolescentes são, muitas vezes, irracionais. Enquanto que alguns adultos podem ter alguns problemas exatamente com este facto, a mim não me incomoda minimamente. Quando procuro uma história, não estou necessariamente à procura que ela seja realista. Posso estar, em alguns casos, mas não estou sempre. Se estivesse, nunca iria ler um Harry Potter (como se fosse possível!) e nunca veria um filme de ficção científica, por exemplo. Ou seja, na minha opinião, as histórias não precisam de ser todas altamente realistas. Pelo contrário, muitas vezes mergulhamos em histórias – sejam elas em forma de livro, filme ou série – precisamente porque queremos mergulhar num outro mundo, e não há mal nenhum nisso. As histórias existem exatamente para isso.

     

    Por isso, eu vou continuar a ler YA, por muito que se escrevam artigos que afirmam que devia ter vergonha de o fazer. E também vou continuar a ler e ver fantasia, ficção científica e terror, por muito irrealistas que essas histórias sejam.

     

    wrap up

     

    Quanto aos três livros YA que li nos últimos tempos, todos eles retratavam situações de vida muito complicadas por parte dos personagens principais, dois deles por sofrerem de perturbações mentais complicadas e outra por sofrer de uma doença que a obrigava a permanecer dentro de casa para o resto da vida.

     

    Mas vamos aos livros.

     

    Highly Illogical Behaviour, de John Corey Whaley

    highly illogical behaviour

    [Goodreads] [BookDepository]

     

    A narração deste livro é alternada entre duas personagens, o Solomon e a Lisa. O Solomon sofre de agorafobia, que muita gente pensa ser o medo de estar em espaços abertos ou com muitas pessoas. Na realidade, este transtorno é melhor explicado como o medo de ter um ataque de pânico em frente de outras pessoas ou num local de onde não se consiga sair ou onde não chegue ajuda rápida. A Lisa pretende entrar numa das universidades mais prestigiadas do país para estudar Psicologia e adota Solomon como seu caso de estudo e “bilhete de entrada” para a universidade: pretende curá-lo e escrever um ensaio sobre isso. Metido na história, há ainda o Clark, namorado da Lisa, que acaba por tornar-se também amigo de Solomon.

     

    Gostei muito desta história não só por ter ficado a saber mais sobre este distúrbio e do que é sofrer de ataques de pânico, mas também porque a interação entre os três personagens está muito bem conseguida e houve um sub-plot em que fiquei até ao fim sem saber qual seria o desfecho (o que é cada vez mais raro).

     

    A personagem da Lisa é altamente determinada e focada e praticamente não olha a meios para conseguir atingir os seus objetivos. Acaba por sofrer com isso por levar à sua solidão, mas nem por isso ela arreda pé do seu trabalho e da sua luta. Só consegue pensar em entrar na universidade que quer, e todos à sua volta acabam por sofrer com isso.

     

    Quanto ao Solomon, como não poderia deixar de ser, é uma personagem altamente complexa e interessante. Vive com os pais, claro, e quando está apenas com eles ou com a avó, tem um comportamento totalmente normal. É apenas da presença de outras pessoas que fica perturbado, com medo de ter um ataque de pânico e sem conseguir estar confortável. Rapidamente descobrimos que há outras coisas que não o deixam viver em paz e que podem até estar na raiz de todos os seus problemas.

     

    É impossível não reparar no facto de estes dois personagem representarem autênticos opostos. Um deles, determinado e persistente com tudo, apenas focado nos seus objetivos. O outro, capaz de abdicar de tudo para permanecer no conforto do seu lar sem correr riscos. Não digo que neste caso os opostos se atraiam, mas talvez precisem muito um do outro para perceberem que no meio é que está a virtude.

     

    4-estrelas

     

    Everything, Everything, de Nicola Yoon

    everything

    [Goodreads] [BookDepository]

     

    Mais um livro excelente. A personagem principal, Maddy, sofre de uma doença autoimune que faz com que seja alérgica a praticamente tudo, pelo que vive fechada dentro de uma bolha, a sua casa, que está selada e tem um air-lock para desinfeção de visitas à entrada. Vive apenas com a mãe, pois perdeu o pai e o irmão num acidente de carro quando era ainda bebé e tem a maior parte das suas aulas online, salvo algumas exceções em que vai um tutor a casa – alguém de confiança da mãe, que se desinfeta totalmente à entrada e, mesmo assim, não se aproxima muito dela nem lhe toca.

     

    Maddy já está habituada à sua realidade e acaba por se conformar que terá de viver assim para o resto da vida. Lê muito e vai adiantada na escola. Mas tudo muda quando os novos vizinhos se mudam para a casa ao lado e ela vê o Olly. Primeiro vêem-se através da janela, depois começam a trocar mensagens online e depois, como não podia deixar de ser, ambos querem mais do que isso. Só que não podem tocar-se, nem sequer estar na mesma divisão juntos, o que só podia gerar problemas.

     

    Gostei mesmo muito deste livro. É empolgante e por vezes deixava-me com a respiração em suspenso, não só mas também pela tensão impressa à narrativa pelo facto de duas pessoas que gostam uma da outra mão se poderem tocar. O único problema que tive com ele foi ter adivinhado o fim com demasiada facilidade [às vezes não sei se já sou eu que estou demasiado alerta para a estrutura narrativa e consigo, assim, prever os finais, ou se são os finais que são mesmo pouco surpreendentes. Alguém que já tenha lido este livro que me diga, por favor.] Ainda assim, recomendo mesmo que o leiam, vale bem a pena.

     

    4-estrelas

     

    Turtles All the Way Down, de John Green

    turtles all the way down

    [Goodreads] [BookDepository]

     

    Já disse isto no Facebook há uns dias e agora repito aqui: do John Green, já tinha lido ‘The Fault in Our Stars’ e ‘Paper Towns’. Gostei, mas não me fascinaram. Este ‘Turtles All the Way Down’ foi diferente. Entre outras excelentes críticas, o The Guardian disse sobre ele ‘It might just be a new modern classic.’ e eu tenho de concordar que é dos melhores YA que já li.

     

    Também este livro se foca muito numa perturbação mental: a personagem principal, Aza, sofre de distúrbio obsessivo-compulsivo e, sendo a história narrada na primeira pessoa, ela conta-nos tudo o que vai na sua cabeça, o que é totalmente fascinante, avassalador e perturbador. Vou despachar já o único ponto negativo deste livro: há um mistério que tem uma resolução algo anti-climática, e por isso lhe tirei meia estrela da minha classificação. Se esquecermos isso, e tendo em conta que o mistério nem sequer é muito importante para a história – já que existe essencialmente para voltar a colocar em contacto duas personagens que já não se falam há algum tempo – o livro é absolutamente fascinante.

     

    A história é boa, os personagens estão muito bem trabalhados, cada um deles com as suas características bem diferenciadoras, os assuntos tratados são interessantes, é realista e fiel aos dias de hoje, quando muitos autores têm ainda grandes dificuldades em incorporar o digital e o facto de termos constantemente um smartphone agarrado à mão nos seus livros. Mas não o John Green, que foi capaz de o incorporar de uma forma brilhante, com alguns dos melhores diálogos a acontecerem por mensagem escrita (e não é essa, muitas vezes, a nossa realidade?). Além disso, este livro foge por completo a muitos dos clichés que já se tornaram tão banais dentro do género e o final é muito interessante.

     

    Para além da história e personagens bem trabalhados, a escrita do John consegue, em momentos selecionados, imprimir uma velocidade estonteante aos pensamentos da personagem principal que acredito traduz o que realmente vai na cabeça de alguém com este distúrbio. Ele bem o saberá, já que sofre (abertamente) do mesmo problema e nos momentos em que consegue imprimir essa velocidade à nossa leitura, quase perdemos o fôlego e temos de fazer uma pausa para respirar fundo antes de continuarmos.

     

    Todos deviam ler este livro, principalmente se não fazem ideia do que é viver com distúrbio obsessivo-compulsivo. Acredito que depois de conhecerem a Aza vão ficar com uma boa noção. Eu, pelo menos, sinto-me muito mais esclarecida. A edição portuguesa saiu na sexta-feira passada e o título é Mil Vezes Adeus (não me perguntem porquê, já que não encontrei nada no livro que remetesse para esta expressão… percebo que não será fácil traduzir “Turtles all the way down” mas não faço ideia onde foram buscar isto).

     

    Só espero não ter de aguardar mais cinco anos pelo próximo livro do John Green e como também já disse no Facebook: um dos meus sonhos é, agora, conhecê-lo pessoalmente!

     

    4.5-estrelas

     

    E vocês, o que têm lido ultimamente?