Ser estóico #2 – O significado das reações

Podem encontrar aqui o primeiro texto desta rubrica.

 

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(créditos da imagem: Christopher Sardegna)

 

Para uma explicação breve: comecei por ler um livro, em Dezembro do ano passado, sobre Filosofia Estóica, chamado “The Obstacle is the Way” escrito por Ryan Holiday. Gostei muito e decidi começar a ler o livro “The Daily Stoic” do mesmo autor em colaboração com Stephen Hanselman. Este livro é composto por um texto para cada dia do ano, cada texto constituído por um parágrafo de um filósofo estóico seguido da interpretação dos autores do livro. Nesta rubrica falo sobre algumas das ideias transmitidas por este tipo de filosofia.

 

Tenho percebido que há um tema que surge constantemente na filosofia estóica e que tem a ver com o significado das reações – a coisas, situações, sentimentos, pessoas, imprevistos. Este assunto pode ser visto de duas perspetivas diferentes.

 

As reações dos outros

Uma ideia muito difundida entre os filósofos estóicos é que as reações dos outros a ti, às tuas ideias e ao teu modo de vida, têm a ver com eles próprios, não estão relacionadas contigo. Isto é algo que pode parecer óbvio em certas situações, mas noutras nem tanto.

 

Por exemplo, numa situação de violência doméstica, o facto de um homem agredir a mulher diz muito mais sobre o tipo de homem que ele é do que sobre ela. Penso que todos podemos concordar com isto. Este é um caso óbvio.

 

O que muitas vezes não percebemos mas que pode mudar completamente a forma como vemos o mundo é que isto é verdade para tudo. Por exemplo, se algum colega de trabalho se irrita numa reunião quando tu estás a dar uma ideia, isto diz muito mais sobre ele do que sobre a tua ideia. Se uma outra pessoa toma uma atitude defensiva quando tu a chamas a atenção por algum motivo, isso diz muito mais sobre essa pessoa do que sobre ti. Se uma pessoa decide afastar-se de um grupo de amigos, isso diz muito mais sobre ela do que sobre o grupo.

 

E por aí fora. Talvez mais importante do que tudo o resto: se alguém diz mal de ti, ou te trata mal ou faz algo para te magoar, isso sem dúvida que diz mais sobre essa pessoa do que sobre ti. Ter esta perceção faz com que seja muito mais fácil lidar com as reações dos outros.

 

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(créditos da imagem: Jake Melara)

 

Depois há o reverso da medalha.

 

As tuas reações

Porque as tuas reações – e as tuas ações – também dizem muito sobre ti.

 

Alguém se mete à tua frente na fila do supermercado e tu começas a disparatar? Isso diz mais sobre ti do que sobre a pessoa que se meteu à tua frente. Não digo para deixares passar – se bem que por vezes é mesmo o melhor – mas há várias formas de lidar com a situação.

 

O teu chefe chama a tua atenção para algo que fizeste mal no trabalho e tu começas a chorar (ok, podes não começar a chorar logo ali, mas sentes essa vontade e é o que fazes quando chegas a casa*)? Isso diz muito mais sobre ti e sobre a forma como lidas com as tuas falhas do que sobre o teu chefe ou o teu trabalho.

 

Estás de férias, há um imprevisto qualquer e ficas logo chateado? Já sabes o que vou dizer a seguir, certo? São férias, já sabemos que há imprevistos, para quê ficar chateado? Isso fala sobre a pessoa que és.

 

Man is affected, not by events, but by the view he takes of them.

Epictetus

 

Quando te convences de coisas como “eu sou o tipo de pessoa que lida bem com imprevistos” e depois chega aquele imprevisto que vai acontecer nas próximas férias, será muito mais fácil de lidares com ele. Quando dizes a ti próprio – e acreditas – “eu sou o tipo de pessoa que não se importa de falhar desde que aprenda com os meus erros”, da próxima vez que o teu chefe te chamar à atenção por algum erro, vais reagir muito melhor e vais automaticamente procurar a forma de aprenderes algo com esse erro, em vez de te martirizares por teres falhado.

 

Também isto tem a ver com o auto-conhecimento – quando olhares para dentro de ti e tentares perceber de onde vêm as tuas reações, vais ficar a conhecer muito melhor a pessoa que és. E também isto tem a ver com mudança de identidade – porque se te convenceres que és a pessoa que reage de determinada maneira, muita mais facilmente vais começar a fazê-lo.

 

Today I escaped anxiety. Or no, I discarded it, because it was within me, in my own perceptions not outside.

Marcus Aurelius, Meditations

 

Cada vez mais tenho dado por mim a parar em certas situações para pensar “calma lá, porque é que eu estou a reagir assim a isto?” ou então, quando alguém reage de uma forma que eu não estou à espera também agora consigo parar e pensar “calma, deve haver algo nesta pessoa que a está a fazer reagir assim, o mais provável é não ter nada a ver comigo”. Sinto que ter a capacidade de parar para pensar neste tipo de coisas oferece mesmo uma nova perspetiva sobre o mundo, para além de me permitir viver em menos stress e de forma mais consciente (ou o chamado mindfulness aplicado às pessoas).

 

Tenta prestar mais atenção às tuas próprias reações. Tenta interpretar o que elas querem dizer. Vais ver que quando começas a fazê-lo novas perspetivas se começam a abrir, e quando novas perspetivas se abrem sobre ti próprio, a pessoa que és só pode mudar para melhor.

 

It’s not what happens to you, but how you react to it that matters.

Epictetus

 

*não falo por mim, que sou culpada de chorar mesmo ali, em frente ao chefe