Ligar os pontos da tua vida

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(créditos da imagem: Jeremy Bishop)

 

Há duas semanas falei de uma série de coisas que apenas percebi depois dos 30 e na semana passada falei sobre um episódio de um podcast com conselhos para pessoas de 20 e poucos anos, conselhos esses que também eu gostaria de ter recebido aos 20 anos.

 

Na consequência de todas estas reflexões, há mais uma coisa na qual tenho andado a pensar.

 

Tenho a certeza que a maior parte de vocês conhece o discurso que o Steve Jobs deu na cerimónia de graduação da Universidade de Harvard em 2005. Nesse discurso ele fala em “connecting the dots” ou ligar os pontos da nossa vida. Se nunca ouviram ou leram o discurso podem fazê-lo neste vídeo ou ler o texto aqui.

 

No fundo, eu interpreto este discurso como uma reflexão sobre o facto de que apenas tudo aquilo que vivemos poderia trazer-nos até onde estamos hoje e que bastaria, por vezes, uma ligeiríssima mudança num dos passos que demos no passado para que acabássemos por ir parar a um lugar completamente diferente. Claro que só somos capazes de fazer estas ligações depois dos acontecimentos, mas a verdade é que elas estão lá.

 

Quando olho para a minha vida e tento ligar os pontos, considero que há um facto muito importante e que mudou tudo: o dia 1 de Novembro de 2015 calhou a um domingo. Este facto é universal: o dia 1 de Novembro de 2015 foi domingo para toda a gente, mas penso que esse dia pode ter mudado a minha vida.

 

Há outras coisas que influenciaram isto:

– eu vivo em Lisboa mas sou do Porto
– viajo várias vezes entre estas duas cidades, às vezes de carro e às vezes de comboio, mas em 2015 fazia sempre a viagem de comboio
– o NaNoWriMo começa todos os anos a 1 de Novembro
– uns meses antes tinha lido um artigo no Público online sobre o Booktube

 

Tenho a sensação que se não fosse a conjugação de todos estes factos eu não teria neste momento um primeiro rascunho de um livro já concluído, outro a ser escrito, e tantos outros dentro da minha cabeça.

 

Para quem não sabe, o NaNoWriMo é um evento anual gerado nos Estados Unidos e chamado National Novel Writing Month. Consiste num desafio para escrever um livro de 50 mil palavras num mês, mais precisamente, durante o mês de Novembro. Eu só tomei conhecimento da existência deste desafio por ter começado a seguir vários booktubers, como consequência do artigo que li no Público uns meses antes. Como já falei aqui, booktubers são pessoas que publicam vídeos no Youtube onde falam sobre livros. São leitores ávidos e muitos deles também gostam de escrever. No mês anterior ao NaNoWriMo, alguns dos booktubers que seguia começaram a falar desse evento e de como se estavam a preparar para escreverem o seu livro. Como em tantas outras alturas da minha vida eu pensei que também adorava escrever um livro, e como em tantas outras alturas da minha vida automaticamente pensei que nunca seria capaz. E passei todo o mês de Outubro a pensar assim.

 

Até que chegou o dia 1 de Novembro, era domingo e por isso mesmo eu encontrei-me durante três horas num comboio entre o Porto e Lisboa, com muito pouco para fazer. E a certa altura pensei “porque não? posso, ao menos, tentar.” Era o primeiro dia do NaNoWriMo e pensei que se era para começar, então tinha de começar naquele dia. Sabia perfeitamente que se deixasse para o dia seguinte já não o faria. Já teria deixado passar um dia, sei que me iria distrair com o trabalho e quando voltasse a pensar no assunto já estaríamos no fim de semana seguinte e já teria passado demasiado tempo para fazer sentido começar. Por isso não pensei muito, simplesmente liguei o computador, abri um documento Word novo e escrevi as minhas primeiras palavras de ficção de sempre. Nesse dia penso que foram apenas 37, mas foi o início.

 

Houve uma série de acontecimentos que me levaram àquele lugar naquele dia e naquelas circunstâncias. Se tivesse escolhido outro curso aos 18 anos (12 anos antes) não sei se alguma vez teria acabado a trabalhar em Lisboa. Se não tivesse feito o doutoramento duvido que alguma vez tivesse ido parar à empresa onde trabalho hoje e onde já trabalhava na altura. Parece que tudo na minha vida se conjugou para me levar até àquele momento e até onde me encontro hoje. Não quer dizer que de outra forma não tivesse acabado por chegar ao mesmo lugar, não sei nem nunca vou saber, mas tenho a sensação que talvez tivesse levado muito mais tempo.

 

Por isso não me arrependo de absolutamente nada. Não há nada que fizesse de maneira diferente. Mesmo quando falo em coisas que apenas aprendi mais tarde ou conselhos que gostava de ter recebido mais cedo, isso não me deixa com nenhum sentimento de arrependimento nem de amargura em relação a todas as escolhas que fiz ao longo da vida.

 

Este pensamento nem sequer é de agora. Já há uns anos (quase logo a seguir a ter terminado o curso) que penso que sabendo o que sei hoje, provavelmente não teria escolhido o mesmo curso. Mas a verdade é que foi na faculdade que conheci o amor da minha vida, por isso nunca mudaria isso. Sempre pensei assim e estou plenamente convencida que não vale a pena ter arrependimentos.

 

Por isso, quando falo em coisas que apenas percebi depois dos 30 e conselhos que daria a mim própria com 20 anos, não quer dizer que esteja arrependida do percurso que percorri. Não estou. São apenas reflexões. Adoro a minha vida e aprendi sempre imenso com tudo o que fiz. Além disso e mais importante ainda, sinto um enorme entusiasmo pelo meu futuro e por aquilo que ainda está para vir. A vida não acaba aos 30 e vamos sempre a tempo.

 

E afinal de contas, os 30 são os novos 20, certo?

4 Comment

  1. Por vezes podemos reclamar das nossas escolhas ou daquilo que nos aconteceu, mas foram exactamente esses episódios que nos tornaram nas pessoas que somos hoje e no que queremos fazer hoje. Acredito muito que há uma ligação entre todos os pontos e, tal como diz o Steve Jobs, só faz sentido vermos a nossa vida num contínuo quando começamos a ligar os pontos todos do passado.
    E mesmo que não estejamos no sítio onde queremos estar, podemos sempre reconectar os pontos e mudar o nosso curso!

    1. É isso mesmo Rita: não importa onde estamos, importa para onde vamos =)

  2. Muitas vezes digo q se soubesse o q sei hoje JAMAIS teria tirado o curso q tirei. Mentira, teria sim senhor. Foi durante esse mesmo curso numa área q detesto,na qual nunca trabalhei nem queria trabalhar, q me apercebi – n na altura, n! á porteriori, muitos anos depois, cerca de vinte – de q a única coisa que queria fazer da minha vida era escrever. Escrever, e em inglês. Contar histórias, criar personagens, dar-lhes vida. Mas em inglês. Eu acho q importa mais onde estou neste momento, até porque estou onde queria estar e onde preciso de estar, e não estou muito preocupada com o onde vou, isso ficou-me nos vinte, trinta anos. Aos quarenta já acho que é onde estou que importa estar, pq é no presente q eu faço o q me alimenta, o q me constrói, o q me faz feliz.
    https://bloglairdutemps.blogspot.pt/

    1. Olá Ruth. Concordo que o presente é o mais importante, eu também costumo dizer que devemos ser felizes agora e não num futuro imaginado onde havemos de atingir os nossos objetivos. Isso é o que eu penso para ser feliz: importa-me onde estou agora. Mas sei que parte do sítio onde estou é consequência do meu passado e apesar de não me arrepender de nada sei que hoje quero ir para um sítio diferente. Daí afirmar que importa para onde vamos. Onde eu estou hoje só me faz sentido e só me deixa feliz no contexto daquilo que quero para o meu futuro. No outro dia perguntaram-me como faço para ser feliz todos os dias, e penso que uma das chaves para o conseguir é ter um plano para o futuro. No fundo acho que estamos a dizer a mesma coisa =)
      Parece que temos uma história muito parecida, também descobri o amor pelas palavras mais tarde. Mas lá está, vamos sempre a tempo, aos 30 ou aos 40 ou aos 60 😉

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