Como escrever um livro em 12 passos – parte 1

(créditos da imagem: Daniel McCullough)

 

Há uns tempos escrevi um post sobre o projeto hercúleo que é escrever um livro. Desta vez volto ao mesmo assunto mas decidi deixar aqui os 12 passos que considero necessários para que possamos ter um livro nosso nas mãos. Para o caso de alguém ter interesse mas não saber nada sobre o processo, aqui ficam os básicos.

 

São apenas 12 passos mas, como vão perceber, a maior parte deles é bastante complexa, pelo que todo o processo, desde o passo 1 até ao último, pode levar vários anos. Aliás, o processo pode nem ter fim porque nunca ficamos satisfeitos com aquilo que escrevemos e podemos continuar a querer melhorá-lo indefinidamente. Mas se realmente quisermos um dia ter nas nossas mãos um livro impresso com o nosso nome como autor, há que saber onde parar e dar o trabalho como finalizado.

 

Alguns passos são opcionais e todo o processo depende em parte da forma como cada um pretenda publicar: há passos exclusivos para uma publicação tradicional (através de uma editora) e outros limitados a quem pretende publicar de forma independente. Mas a maior parte do processo é comum ambos, nomeadamente os passos mais importantes e criativos.

 

Vamos então dar início à lista:

 

1 – Ter uma ideia

Esta pode parecer a parte fácil mas não é. Primeiro porque até podemos ter várias ideias mas conseguir perceber se uma dada ideia é suficiente para escrever todo um livro nem sempre é fácil. Afinal de contas, estamos a propor-nos a passar alguns meses/anos a escrever 200 ou 300 ou mais páginas à volta daquela ideia, por isso ela tem de ter “sumo” suficiente.

 

Tenho vindo a aperceber-me que a imaginação e a criatividade funcionam muito como um músculo: quanto mais as exercitamos, mais fácil se torna fazer coisas mais difíceis, ou seja, ter ideias mais “sumarentas”. Mas até podemos ter muitas ideias e nenhuma delas ser boa para um livro, e saber identificar qual delas devemos desenvolver nem sempre é fácil. Mesmo que muitas delas não cheguem a lado nenhum, é sempre bom tê-las, lá está, para exercitar o músculo da criatividade. Cada ideia que tenhamos e que descartemos é um passo mais próximos que ficamos de encontrar “a” ideia.

 

Quando finalmente sentirmos que temos uma ideia forte o suficiente para começarmos a focar-nos na nossa história, é também importante que sintamos entusiasmo pela nossa ideia. Tem de ser algo que nos deixe ansiosos para escrever. Como disse atrás, todo este processo pode levar anos. Se não tivermos um real interesse pela nossa história, eventualmente vamos desmotivar e perder a vontade de continuar a trabalhar nela. Além disso, escrever não é fácil, principalmente em termos anímicos. Se não for uma ideia que nos deixe empolgados, o ato de nos sentarmos na cadeira para escrever vai acabar por se tornar uma tortura e um sacrifício. Se isso acontecer, é muito provável que nunca cheguemos a acabar aquele livro, será simplesmente demasiado difícil para que continuemos a insistir.

 

Assim, resumindo, uma boa ideia para um livro tem de ser

a) Interessante o suficiente para construir toda uma história à volta dela

b) Interessante o suficiente para nos manter motivados ao longo de todo o processo.

 

2 – Desenvolver a ideia

Quando nos decidirmos a pegar numa das nossas ideias e escrever um livro com ela, o passo seguinte será trabalhar essa ideia. Normalmente, quando temos uma ideia, ela não passa de uma premissa. Algo que pode ser resumido em uma ou duas frases e que normalmente corresponde ao que dizemos a alguém que nos pergunta sobre o que é um livro. Por exemplo, se alguém me perguntar sobre o que é o Harry Potter a minha resposta seria algo do género: “é sobre um rapaz que descobre que é feiticeiro, vai para uma escola aprender magia e tem de destruir o maior tirano desse mundo mágico que o quer matar”. Isto é uma premissa. Mas uma ideia tem de ser transformada em muito mais do que isso. Um livro não sobrevive apenas com uma premissa.

 

Logo a seguir à premissa, devemos pensar no conceito da nossa história. O conceito é parecido com a premissa, mas vai um pouco mais longe. Vou dar outro exemplo: a premissa do filme Sozinho em Casa é uma criança que é deixada sozinha em casa quando a família vai viajar e tem de afastar uma dupla de ladrões para proteger a sua casa. O conceito do mesmo filme é: uma criança que é deixada sozinha em casa quando a família vai viajar apercebe-se que às vezes só quando ficamos sem algo é que passamos a dar-lhe o verdadeiro valor. Mais um exemplo: Pretty Woman. Premissa: uma prostituta é contratada por um homem de negócios, acaba por se fazer passar por sua namorada e entra num mundo completamente diferente do seu. Apesar de tudo, os dois apaixonam-se e têm de enfrentar as convenções da sociedade para ficarem juntos. Conceito: às vezes encontramos o amor no mais improvável dos sítios.

 

(pequena nota: sei que estou a usar mais exemplos de filmes do que de livros e existem três motivos para isso: primeiro, os conceitos à volta da construção de histórias aplicam-se tanto a livros como a filmes; segundo, a maior parte das pessoas está mais familiarizada com filmes do que com livros; e terceiro, por causa da sua natureza por vezes mais comercial, alguns destes conceitos são mais óbvios nos filmes e mais subjetivos nos livros)

 

Para além do conceito há mais algumas coisas a pensar nesta fase:

  • O tema: pode ser a luta entre o bem e o mal, a falta que a família nos pode fazer, o amor entre pessoas de meios diferentes (temas dos exemplos acima).
  • O género: dependendo do género que escolham, há coisas que vão ter mesmo de acontecer para que o público desse género fique satisfeito quando ler o livro. E a mesma premissa e o mesmo conceito podem funcionar para géneros diferentes. Por exemplo, Pretty Woman é uma comédia romântica mas podia ser um drama (com a mesma premissa, o mesmo conceito e o mesmo tema). Sozinho em casa é uma comédia mas podia ser um thriller/suspense (se os ladrões fossem mais sérios e impusessem mais medo e as situações fossem de maior perigo – provavelmente o tema seria diferente, mas a premissa e o conceito poderiam perfeitamente ser os mesmos).
  • O final também é extremamente importante. Para conseguirmos estruturar uma narrativa, temos de saber para onde nos estamos a dirigir, em que direção queremos levar aquela história. Caso contrário, vamos acabar por nos perder pelo caminho e a história vai transformar-se numa grande salgalhada (é fazível sem saber o fim, mas provavelmente vai tornar o processo de revisão muito mais trabalhoso. Ou então chamas-te Stephen King!).
  • Caracterização das personagens: não podemos escrever um livro sem antes conhecermos as nossas personagens. As atitudes de todas as personagens ao longo da história têm de ser consistentes com quem aquela personagem é. Temos de saber qual o objetivo das diferentes personagens durante o decorrer daquela história. Temos de saber bem como a nossa personagem reage em diferentes situações, como se adapta ao mundo à sua volta e o tipo de relações que tem com as restantes personagens. Há inclusivamente diferentes exercícios que podem ser feitos para ficarmos a conhecer melhor as personagens, como entrevistas, escrever cenas que nada têm a ver com a nossa história mas que relatam situações vividas por aquela personagem, questionários, entre outros.
  • Caracterização do mundo: esta parte depende muito do tipo história que estamos a escrever. É mais importante em histórias de fantasia e ficção científica, em que o mundo onde a história se passa pode ser significativamente diferente do mundo real. Por exemplo, em histórias que incluem o uso de magia, temos de saber bem logo à partida como vai funcionar a magia naquele mundo que estamos a criar. Outro exemplo é o sistema político em vigor no mundo que estamos a criar (muito importante em distopias, por exemplo). Estas coisas devem ser definidas (pelo menos uma primeira tentativa, que mais tarde pode até mudar) nesta fase do trabalho.

 

3 – Estruturar a narrativa

Este é mais um passo altamente complexo. Aqui é onde vamos decidir tudo (ou praticamente tudo) o que vai acontecer na nossa história.

 

Alguns podem querer saltar este passo, não há mal nenhum nisso. É totalmente opcional. Podem limitar-se a saber o início e o fim da vossa história e simplesmente ir escrevendo até chegarem ao final. Como disse atrás, podem até não saber o fim e simplesmente ir escrevendo. Quem não trabalha na estrutura da história antes de começar a escrever são os chamados “pantsers” (em oposição aos “plotters”) em Inglês. O Stephen King, por exemplo, é um famoso “pantser” e tem um sucesso gigantesco, afirma até que para ele saber à partida como a história se vai desenrolar destrói todo o processo criativo. No entanto, é de notar que ele é altamente experiente e provavelmente tem uma noção daquilo que funciona numa história muito superior a qualquer um de nós (mas de certeza que tal não era o caso no início da sua carreira).

 

Mas quem gosta de estruturar a narrativa, pode investir algum tempo aqui. Nesta fase vão ser trabalhados os seguintes aspetos:

  • Os pontos de viragem – pontos na narrativa que implicam alguma transição ou mudança de perspetiva em relação àquilo que está a acontecer.
  • Os enredos secundários – são enredos não tão importantes como o enredo principal mas que vão acontecendo em paralelo com ele e no final podem ou não ter uma ligação mais profunda com a história principal. Normalmente é aqui que conseguimos explorar melhor alguns personagens secundários. Podemos ter tantos enredos quantos quisermos, apesar de não ser aconselhado ter mais do que 3 ou 4, caso contrário a história vai tornar-se demasiado complexa. Além disso, é importante que os enredos secundários estejam de alguma forma relacionados com o enredo principal, pelo menos no que diz respeito ao tema.
  • O clímax e a resolução – mais uma vez, é importante saber como vai acabar a história para poder direcionar a narrativa nesse sentido. O clímax é fulcral em qualquer história. Vai ser o momento mais baixo do percurso do nosso personagem principal.
  • Outras cenas – uma história não vive apenas de pontos de viragem e clímax, temos de ter outras cenas, cenas essas que mostrem como são os nossos personagens, as relações entre eles, como é que as coisas estão a mudar ao longo da narrativa. É importante que todas as cenas tenham um objetivo e um momento de viragem (diferente de ponto de viragem que apenas acontece em 3 ou 4 casos ao longo da narrativa).

 

Convém salientar que a estrutura que definirmos nesta altura não fica escrita em pedra e podemos alterá-la a qualquer momento. Se estivermos a escrever (spoiler alert: é o próximo passo) e chegarmos à conclusão que uma dada cena não faz sentido, ou se quisermos acrescentar uma outra que entretanto se tornou importante, podemos sempre fazê-lo. Afinal de contas é a nossa história e podemos fazer com ela o que quisermos.

 

Dizem as regras do bom blogging que os posts não devem ter mais de 500-600 palavras, e este já vai com quase duas mil (eu acho que os meus leitores têm capacidade de concentração para muito mais do que 500 palavras!). Não esperava escrever assim tanto quando comecei este tópico, por isso o melhor mesmo será dividir esta lista em partes (não é uma grande surpresa para quem leu o título do post). Até aqui os passos são todos comuns para os diferentes meios de publicação. Os próximos também serão, mas a certa altura a lista vai bifurcar, apresentando num caminho os passos para a publicação tradicional, e no outro os passos para a publicação independente. O último passo volta a ser comuns aos dois meios.

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