ACMA | Aprender nos tempos livres: Podcasts

Hoje venho estrear a minha participação no projeto ACMA – A Cultura Mora Aqui.

 


Este é um projeto de colaboração de bloggers e youtubers (se quiserem também podem participar, vejam como o podem fazer no final deste post) que gostam que a bloggosfera (e também o Youtube) seja mais do que apenas moda e beleza, e querem, por isso mesmo, encher os nossos blogs de temas como cinema, séries, músicas, livros, decoração, tecnologia, entre muitas outras coisas interessantes. Se quiserem ler mais um pouco sobre este projeto podem consultar este post escrito pela Joana do Cor Sem Fim, e podem também consultar aqui os outros participantes neste projeto.

 

O tema do ACMA para os meses de Março e Abril é hobbies/passatempos e eu venho falar-vos de um dos meus hobbies de eleição: podcasts.

 

(créditos da imagem: Anubhav Saxena)

 

Sou uma pessoa que gosta de aprender. Quando era miúda dizia que queria estudar para sempre. Só estudei até aos 28 anos mas pondero voltar a fazê-lo (volta e meia dá-me uma enorme vontade) e acredito que devemos continuar a aprender todos os dias e ao longo de toda a nossa vida.

 

Gosto muito de absorver informação nova e muito pouco de perder tempo. Isto tem as suas coisas boas e más, porque se por um lado sinto que estou sempre a crescer e a evoluir, por outro chego a ficar muito cansada e tenho algumas dificuldades em fazer com que a minha mente pare por uns minutos. Mas o facto de ser assim leva-me a querer sempre aproveitar o meu tempo ao máximo. E por isso adoro ouvir podcasts (e também audiobooks, mas ultimamente ando mais virada para os podcasts).

 

Costumo ouvir podcasts nas vais variadas situações:

  • a conduzir: já não ouço rádio no carro, estou sempre a ouvir podcasts (ou a falar ao telefone) porque tenho a sorte de ter bluetooth no carro.
  • a arrumar a casa: é uma tarefa já de si tão chata que não consigo fazê-la sem mais qualquer coisa para me animar. Por vezes coloco música que me dê vontade de dançar e danço enquanto arrumo, mas também aqui ultimamente tenho andado mais virada para os podcasts.
  • a cozinhar: quando estou sozinha, claro.
  • no ginásio: adoro ir para o ginásio e desligar de tudo, concentrar-me nos meus podcasts enquanto treino.
  • a caminhar: gosto mesmo muito de sair de casa apenas para caminhar, faço-o com muita regularidade. Há dias (os mais stressantes) em que sinto quase uma necessidade física de sair de casa ao final do dia, colocar os phones nos ouvidos, desligar do resto do mundo e espairecer a cabeça. Levo sempre os meus podcasts comigo, claro, e às vezes dou uma caminhada mais longa só para ouvir mais um bocadinho.

 

Todo este tempo somado, acaba por dar para ouvir muitos podcasts. Subscrevo muitos (mesmo), há alguns que já ouvi muito e já desisti, outros que sei que vou continuar a ouvir sempre, e outros que vou buscar todos os episódios já publicados para ouvir desde o início.

 

Não conheço muitas pessoas que também ouçam podcasts e penso que é um hábito ainda pouco comum em Portugal. Por isso mesmo, hoje deixo-vos aqui uma lista dos meus podcasts preferidos, divididos por tópicos, para ver se também ganham a vontade de adotar este hobbie.

 

Disclaimer: estes são todos em Inglês porque não ouço nenhum podcast português, mas penso que esta é cada vez menos uma barreira para a maioria das pessoas.

 

Saúde o Fitness:

 

Ben Greenfield Fitness

Este é um podcast muito interessante para quem gosta de técnicas mais avançadas e menos conhecidas de saúde, otimização de performance e perda de peso. Este senhor tem um vasto conhecimento sobre coisas como sauna de infravermelhos, “coffee enemas” (pesquisem se quiserem, sob a vossa própria responsabilidade), jejuns prolongados ou técnicas para um sono mais reparador. Tem episódios de entrevistas com especialistas de várias áreas, e também episódios a solo, onde fala das suas mais recentes descobertas e experiências no mundo da saúde e fitness e responde a perguntas enviadas pelos ouvintes.

 

Primal Potential

Este é um dos meus podcasts preferidos, apresentado pela Elizabeth Benton. Ela fala sobre perda de peso, com alguns episódios muito práticos e baseados em factos científicos, e outros mais virados para a motivação e mindset. Raros são os episódios em que faz entrevistas. Tendo ela própria passado pela experiência de perder cerca de 70 kg e estando ainda a percorrer o seu próprio percurso de perda de peso, para além de ter formação em ciências e nutrição e ter trabalhado em tempos na indústria dos suplementos, está muito bem equipada para poder passar este tipo de informação. É um dos podcasts que vou logo ouvir assim que sai um novo episódio (às terças, quintas e sábados).

 

 

Motivação:

Daily Motivations

Também este apresentado pela Elizabeth Benton do Primal Potential (é o segundo podcast dela), tratam-se de episódios diários (de segunda a sexta) muito curtos (menos de 5 minutos) com reflexões motivacionais. Gosto muito de ouvir e apesar de não prestar muita atenção a todos, de vez em quando há um que me toca mais a sério, que tem uma frase que me diz algo de mais significativo ou que me faz pensar numa determinada situação da minha vida.

 

Good Life Project

Apresentado por Jonathan Fields, tem dois episódios semanais: o de quinta-feira, que ouço sempre, com uma reflexão relativamente curta (cerca de 15 minutos) filosófica ou motivacional, e o de segunda-feira, que apenas ouço ocasionalmente, com entrevistas a pessoas inspiradoras. Gosto de o ouvir e ainda gostava de ler o livro dele, com o mesmo título que o podcast.

 

Escrita:

Writing Excuses

Este é simplesmente o podcast mais espetacular de todos os tempos! Apresentado por: Brandon Sanderson, Mary Robinette Kowal, Howard Tayler e Dan Wells (agora, na temporada de 2017, são mais alguns, mas o core é este). É um podcast de escritores, para escritores. Estes quatro escritores, já tão experientes, dão conselhos preciosos para quem ainda está a aprender e para além disso são tão divertidos! Só para terem uma ideia, o slogan deles é “Fifteen minutes long, because you’re in a hurry, and we’re not that smart”. Como podem perceber por aqui, cada episódio tem cerca de 15 minutos (normalmente andam mais perto dos 20) e o esquema deles é terem um grande tema por temporada e depois vão abordando um sub-tema por mês. Recomendam sempre um livro que um deles gostou, e no final de cada episódio dão “trabalhos de casa” – um exercício de escrita (que nunca fiz) – e dão dicas tão boas que todas as pessoas que gostam de escrever histórias devia ouvi-los. Atenção: só se aplica mesmo a escrita de ficção.

 

Story Grid

Apresentado por Tim Grahl, especialista em marketing para lançamento de livros que costuma trabalhar com autores nos seus lançamentos e que decidiu, também ele, escrever o seu próprio livro, e Shawn Coyne, editor com mais de 25 anos de experiência e autor do livro Story Grid, que ajuda escritores a reverem os seus manuscritos com a estrutura em mente. Trata-se basicamente de um editor experiente a ensinar um novo escritor a escrever de uma forma que prenda os leitores. Apresentam conselhos muito úteis e é muito interessante acompanhar as discussões dos dois sobre o livro que o Tim está a escrever, uma vez que ele envia previamente as cenas que vai escrevendo para o Shawn e depois os dois discutem-nas – o que está bem e o que está mal – no podcast.

 

Generalistas:

Dear Hank and John

Este é o podcast dos irmãos Hank e John Green. Tomei conhecimento do trabalho destes dois irmãos há muito pouco tempo, através do seu canal no Youtube. Claro que já conhecia o autor John Green, já li dois livros dele, dos quais gostei apesar de não ter amado, mas não fazia ideia que ele era youtuber, muito menos com o irmão. Eles são os vlogbrothers e para quem não sabe, começaram este projeto a 1 de Janeiro de 2007, quando decidiram deixar de comunicar por escrito e passaram a comunicar através de vlogs. Cada um deles começou a enviar uma mensagem de video ao outro, uma vez por semana, e o canal deles tornou-se num dos de maior sucesso no Youtube (com quase 3 milhões de subscritores à data da escrita deste post). A sua comunidade de fans tem mesmo um nome: são os Nerdfighters ou Nerdfighteria. Desde essa altura, todo o projeto ganhou já novas proporções, tendo gerado vários side-projects, como o Project For Awesome, o Vidcon e este mesmo podcast, que não é sobre nada, apenas os dois irmãos a dizerem parvoíces e a responderem a perguntas enviadas pelos ouvintes, mas de uma forma tão divertida que vale a pena ouvir.

 

Freakonomics Radio

Para quem conhece os livros Freakonomics, o podcast assenta no mesmo tipo de análise das mais variadas situações do dia a dia, sendo que no podcast os autores têm a possibilidade de se focarem mais nos temas da atualidade internacional. Se gostaram dos livros, também vão gostar do podcast.

 

Outros:

ProBlogger podcast

Bom podcast com imensas dicas para bloggers. Já existem 185 episódios, por isso têm muito com que se entreter.

 

The Tim Ferriss Show

Ainda há quem não conheça o Tim Ferriss? Caso não conheçam, pesquisem os livros 4-hour work week e 4-hour body, para além do mais recente Tools of Titans. É louco, muito rico e gosta de fazer as mais variadas experiências com o seu próprio corpo. Vale a pena ouvir.
Apenas mais duas menções honrosas, para dois podcasts que ainda não ouvi mas quero muito: o Serial e o S-Town (que é lançado amanhã), que ao contrário dos anteriores se tratam de séries de ficção no formato de podcast. Já ouvi dizer muito bem do Serial e o S-Town é dos mesmos criadores, já ouvi o anúncio e pareceu-me prometedor.

 

Para concluir: como é que ouço os podcasts? Como podem imaginar, existem imensas aplicações para os ouvir. Penso que quem tem iPhones use o iTunes. Para Android, eu uso a Podcast Addict e gosto, mas sei que há muitas mais das quais não posso falar porque nunca experimentei.

 

Espero que tirem proveito destas minhas sugestões e se quiserem saber mais, tenho muitos mais podcasts para vos recomendar. Não hesitem em dizê-lo na caixa dos comentários. Já agora, se também tiverem podcasts para recomendar, deixem-nos também na caixa de comentários que eu agradeço.

 

 

 

Espero também que tenham gostado desta minha primeira participação no projeto ACMA. Fiquem a saber que qualquer blogger ou youtuber pode participar neste projeto se assim o desejar e que não são obrigados a fazê-lo todos os meses, apenas quando acharem que faz sentido para vocês. Se tiverem interesse contactem a organização através do e-mail acma.cultura@gmail.com Se acharem este projeto interessante podem ainda visitar a página de Facebook e ver o que os outros participantes andam a escrever.

Num autocarro no Vietname

(créditos da imagem: Dan Bøțan)

 

Num autocarro no Vietname. Em silêncio. Ia a ler. Eu à janela, ele sentado ao meu lado. De repente, tive um momento. Parei de ler e olhei pela janela. Olhei pela janela mas não vi nada. Estava demasiado ocupada a ver coisas dentro da minha cabeça. E tive um momento. Um momento comigo própria. Um momento que não consigo explicar. O momento em que tive uma certeza inabalável. O momento em que soube que isto ia acontecer. Que vai acontecer. O momento em que tive a certeza que tenho mesmo de fazer isto. Dê por onde der, vai acontecer. Não sei como. Não sei quando. Não sei de que forma. Mas sei que vai acontecer. Sei, soube naquele momento, que vou levar esta jornada até ao fim. Dê por onde der. Demore o tempo que demorar. Vou chegar lá, hoje sei, hoje tenho a certeza. Tenho a certeza que nem sequer existe outra alternativa possível. Tenho a certeza que tenho em mim a força suficiente para levar isto até ao fim. Por isso vai acontecer, soube-o naquele momento, num autocarro no Vietname.

#betteryou

(créditos da imagem: Dawid Zawiła)

 

Sábado foi um dia bom. Sábado conheci pessoas fantásticas. Pessoas que já sofreram muito. Pessoas que ainda sofrem. Mas pessoas muito fortes e cheias de vontade de dar a volta à sua vida. Senti que era a pessoa com os problemas mais insignificantes no meio daquele grupo.

 

Nesse dia conheci também uma pessoa que há muito sigo de longe. Uma pessoa que sempre me pareceu espalhar a luz por onde quer que ande e que nas 5 horas que passámos juntas demonstrou que é mesmo assim. Uma pessoa que admiro imenso e que já me deu tantas lições de vida através da sua escrita. Uma pessoa que ao longe me faz querer ser mais e melhor, e de perto me fez acreditar que sou capaz de tudo aquilo que eu quiser.

 

Hoje sinto que aquilo que aprendi nesse dia e que ainda vou aprender com as ferramentas que me foram transmitidas já serviu para mudar a pessoa que sou. Sei que já estava no bom caminho para encontrar a minha paz, a minha verdade, mas tive a confirmação de que ainda há muito para melhorar. E percebi também que não tenho de o fazer sozinha.

 

Porque a vida deve ser uma viagem, uma busca por um lugar melhor. Porque nunca devemos parar de nos melhorarmos, de procurar a melhor versão de nós próprios. Porque devemos procurar quem nos inspira, quem nos mostra como podemos evoluir e melhorar. Porque às vezes estamos demasiado perdidos dentro da nossa própria cabeça e precisamos que alguém de fora nos ajude a organizar as ideias, nos ajude a ver as coisas por um novo prisma.

 

Terminei aquele dia com o coração cheio. Cheio de alegria, cheio de energia, cheio de esperança no futuro. Um futuro que eu posso desenhar como quiser. Um futuro que só depende de mim. Um futuro que eu sei que pode ser tudo aquilo que eu quiser. Basta querer e acreditar.

 

Defeitos

Todos temos defeitos. Penso que com o passar do tempo vamos ganhando a capacidade de melhor identificar os nossos. Um dos meus maiores defeitos, chego agora a essa conclusão, é a mania de querer agradar a todos (e chego agora a esta conclusão mas com a noção de que sempre fui assim). A mania de querer ser simpática com todos e que todos me achem simpática. Querer que todos gostem de mim. E a verdade é que isto só me faz mal. E porquê? Porque é simplesmente impossível agradar a todas as pessoas! E isso é algo que ainda tenho de meter nesta minha cabecinha.

 

Ontem uma pessoa levou a mal algo que eu disse. Algo que a mim me pareceu (e depois de muito pensar no assunto continuo a achar) um comentário completamente banal, com a melhor das intenções. E a pessoa levou a mal. Eu nem me apercebi. Para piorar a situação, a pessoa nem sequer veio falar comigo diretamente. Soube-o através de uma terceira pessoa. E claro, fiquei a sentir-me mal. Apesar de continuar a achar que não disse nada de mal, ainda assim fico a sentir-me mal. E culpada. E choro. Porque acho que tenho de agradar a todos. Que todas as pessoas têm de gostar de mim. De notar que eu mal conheço esta pessoa, falei com ela duas vezes. E ainda assim, fico a sentir-me mal.

 

E depois passo horas a tentar convencer-me a mim própria: habitua-te, aprende a não te deixares afetar, é impossível agradar a todos, é impossível que todas as pessoas gostem de ti e compreendam a tua forma de ser e as coisas que dizes, mete na cabeça que isto vai continuar a acontecer, é inevitável.

 

E depois chego a casa e estou tão em baixo, desanimada, basicamente de rastos e vejo isto no Facebook:

 

 

E mais nada!

 

E provavelmente é coincidência (o que mais poderia ser?) mas parece que foi escrito de propósito para mim e no dia exato em que mais precisava de o ouvir/ler. E agradeço o facto de existirem pessoas tão inspiradoras como a Sofia. E a verdade é que não apaga o sentimento de fracasso e de culpa (que nem consigo perceber porque está cá) mas ajuda. Ajuda a ter alguma perspetiva e a racionalizar as coisas. E a não dar importância a pessoas que são simplesmente demasiado sensíveis (ou outra coisa qualquer).

Como escrever um livro em 12 passos – parte 1

(créditos da imagem: Daniel McCullough)

 

Há uns tempos escrevi um post sobre o projeto hercúleo que é escrever um livro. Desta vez volto ao mesmo assunto mas decidi deixar aqui os 12 passos que considero necessários para que possamos ter um livro nosso nas mãos. Para o caso de alguém ter interesse mas não saber nada sobre o processo, aqui ficam os básicos.

 

São apenas 12 passos mas, como vão perceber, a maior parte deles é bastante complexa, pelo que todo o processo, desde o passo 1 até ao último, pode levar vários anos. Aliás, o processo pode nem ter fim porque nunca ficamos satisfeitos com aquilo que escrevemos e podemos continuar a querer melhorá-lo indefinidamente. Mas se realmente quisermos um dia ter nas nossas mãos um livro impresso com o nosso nome como autor, há que saber onde parar e dar o trabalho como finalizado.

 

Alguns passos são opcionais e todo o processo depende em parte da forma como cada um pretenda publicar: há passos exclusivos para uma publicação tradicional (através de uma editora) e outros limitados a quem pretende publicar de forma independente. Mas a maior parte do processo é comum ambos, nomeadamente os passos mais importantes e criativos.

 

Vamos então dar início à lista:

 

1 – Ter uma ideia

Esta pode parecer a parte fácil mas não é. Primeiro porque até podemos ter várias ideias mas conseguir perceber se uma dada ideia é suficiente para escrever todo um livro nem sempre é fácil. Afinal de contas, estamos a propor-nos a passar alguns meses/anos a escrever 200 ou 300 ou mais páginas à volta daquela ideia, por isso ela tem de ter “sumo” suficiente.

 

Tenho vindo a aperceber-me que a imaginação e a criatividade funcionam muito como um músculo: quanto mais as exercitamos, mais fácil se torna fazer coisas mais difíceis, ou seja, ter ideias mais “sumarentas”. Mas até podemos ter muitas ideias e nenhuma delas ser boa para um livro, e saber identificar qual delas devemos desenvolver nem sempre é fácil. Mesmo que muitas delas não cheguem a lado nenhum, é sempre bom tê-las, lá está, para exercitar o músculo da criatividade. Cada ideia que tenhamos e que descartemos é um passo mais próximos que ficamos de encontrar “a” ideia.

 

Quando finalmente sentirmos que temos uma ideia forte o suficiente para começarmos a focar-nos na nossa história, é também importante que sintamos entusiasmo pela nossa ideia. Tem de ser algo que nos deixe ansiosos para escrever. Como disse atrás, todo este processo pode levar anos. Se não tivermos um real interesse pela nossa história, eventualmente vamos desmotivar e perder a vontade de continuar a trabalhar nela. Além disso, escrever não é fácil, principalmente em termos anímicos. Se não for uma ideia que nos deixe empolgados, o ato de nos sentarmos na cadeira para escrever vai acabar por se tornar uma tortura e um sacrifício. Se isso acontecer, é muito provável que nunca cheguemos a acabar aquele livro, será simplesmente demasiado difícil para que continuemos a insistir.

 

Assim, resumindo, uma boa ideia para um livro tem de ser

a) Interessante o suficiente para construir toda uma história à volta dela

b) Interessante o suficiente para nos manter motivados ao longo de todo o processo.

 

2 – Desenvolver a ideia

Quando nos decidirmos a pegar numa das nossas ideias e escrever um livro com ela, o passo seguinte será trabalhar essa ideia. Normalmente, quando temos uma ideia, ela não passa de uma premissa. Algo que pode ser resumido em uma ou duas frases e que normalmente corresponde ao que dizemos a alguém que nos pergunta sobre o que é um livro. Por exemplo, se alguém me perguntar sobre o que é o Harry Potter a minha resposta seria algo do género: “é sobre um rapaz que descobre que é feiticeiro, vai para uma escola aprender magia e tem de destruir o maior tirano desse mundo mágico que o quer matar”. Isto é uma premissa. Mas uma ideia tem de ser transformada em muito mais do que isso. Um livro não sobrevive apenas com uma premissa.

 

Logo a seguir à premissa, devemos pensar no conceito da nossa história. O conceito é parecido com a premissa, mas vai um pouco mais longe. Vou dar outro exemplo: a premissa do filme Sozinho em Casa é uma criança que é deixada sozinha em casa quando a família vai viajar e tem de afastar uma dupla de ladrões para proteger a sua casa. O conceito do mesmo filme é: uma criança que é deixada sozinha em casa quando a família vai viajar apercebe-se que às vezes só quando ficamos sem algo é que passamos a dar-lhe o verdadeiro valor. Mais um exemplo: Pretty Woman. Premissa: uma prostituta é contratada por um homem de negócios, acaba por se fazer passar por sua namorada e entra num mundo completamente diferente do seu. Apesar de tudo, os dois apaixonam-se e têm de enfrentar as convenções da sociedade para ficarem juntos. Conceito: às vezes encontramos o amor no mais improvável dos sítios.

 

(pequena nota: sei que estou a usar mais exemplos de filmes do que de livros e existem três motivos para isso: primeiro, os conceitos à volta da construção de histórias aplicam-se tanto a livros como a filmes; segundo, a maior parte das pessoas está mais familiarizada com filmes do que com livros; e terceiro, por causa da sua natureza por vezes mais comercial, alguns destes conceitos são mais óbvios nos filmes e mais subjetivos nos livros)

 

Para além do conceito há mais algumas coisas a pensar nesta fase:

  • O tema: pode ser a luta entre o bem e o mal, a falta que a família nos pode fazer, o amor entre pessoas de meios diferentes (temas dos exemplos acima).
  • O género: dependendo do género que escolham, há coisas que vão ter mesmo de acontecer para que o público desse género fique satisfeito quando ler o livro. E a mesma premissa e o mesmo conceito podem funcionar para géneros diferentes. Por exemplo, Pretty Woman é uma comédia romântica mas podia ser um drama (com a mesma premissa, o mesmo conceito e o mesmo tema). Sozinho em casa é uma comédia mas podia ser um thriller/suspense (se os ladrões fossem mais sérios e impusessem mais medo e as situações fossem de maior perigo – provavelmente o tema seria diferente, mas a premissa e o conceito poderiam perfeitamente ser os mesmos).
  • O final também é extremamente importante. Para conseguirmos estruturar uma narrativa, temos de saber para onde nos estamos a dirigir, em que direção queremos levar aquela história. Caso contrário, vamos acabar por nos perder pelo caminho e a história vai transformar-se numa grande salgalhada (é fazível sem saber o fim, mas provavelmente vai tornar o processo de revisão muito mais trabalhoso. Ou então chamas-te Stephen King!).
  • Caracterização das personagens: não podemos escrever um livro sem antes conhecermos as nossas personagens. As atitudes de todas as personagens ao longo da história têm de ser consistentes com quem aquela personagem é. Temos de saber qual o objetivo das diferentes personagens durante o decorrer daquela história. Temos de saber bem como a nossa personagem reage em diferentes situações, como se adapta ao mundo à sua volta e o tipo de relações que tem com as restantes personagens. Há inclusivamente diferentes exercícios que podem ser feitos para ficarmos a conhecer melhor as personagens, como entrevistas, escrever cenas que nada têm a ver com a nossa história mas que relatam situações vividas por aquela personagem, questionários, entre outros.
  • Caracterização do mundo: esta parte depende muito do tipo história que estamos a escrever. É mais importante em histórias de fantasia e ficção científica, em que o mundo onde a história se passa pode ser significativamente diferente do mundo real. Por exemplo, em histórias que incluem o uso de magia, temos de saber bem logo à partida como vai funcionar a magia naquele mundo que estamos a criar. Outro exemplo é o sistema político em vigor no mundo que estamos a criar (muito importante em distopias, por exemplo). Estas coisas devem ser definidas (pelo menos uma primeira tentativa, que mais tarde pode até mudar) nesta fase do trabalho.

 

3 – Estruturar a narrativa

Este é mais um passo altamente complexo. Aqui é onde vamos decidir tudo (ou praticamente tudo) o que vai acontecer na nossa história.

 

Alguns podem querer saltar este passo, não há mal nenhum nisso. É totalmente opcional. Podem limitar-se a saber o início e o fim da vossa história e simplesmente ir escrevendo até chegarem ao final. Como disse atrás, podem até não saber o fim e simplesmente ir escrevendo. Quem não trabalha na estrutura da história antes de começar a escrever são os chamados “pantsers” (em oposição aos “plotters”) em Inglês. O Stephen King, por exemplo, é um famoso “pantser” e tem um sucesso gigantesco, afirma até que para ele saber à partida como a história se vai desenrolar destrói todo o processo criativo. No entanto, é de notar que ele é altamente experiente e provavelmente tem uma noção daquilo que funciona numa história muito superior a qualquer um de nós (mas de certeza que tal não era o caso no início da sua carreira).

 

Mas quem gosta de estruturar a narrativa, pode investir algum tempo aqui. Nesta fase vão ser trabalhados os seguintes aspetos:

  • Os pontos de viragem – pontos na narrativa que implicam alguma transição ou mudança de perspetiva em relação àquilo que está a acontecer.
  • Os enredos secundários – são enredos não tão importantes como o enredo principal mas que vão acontecendo em paralelo com ele e no final podem ou não ter uma ligação mais profunda com a história principal. Normalmente é aqui que conseguimos explorar melhor alguns personagens secundários. Podemos ter tantos enredos quantos quisermos, apesar de não ser aconselhado ter mais do que 3 ou 4, caso contrário a história vai tornar-se demasiado complexa. Além disso, é importante que os enredos secundários estejam de alguma forma relacionados com o enredo principal, pelo menos no que diz respeito ao tema.
  • O clímax e a resolução – mais uma vez, é importante saber como vai acabar a história para poder direcionar a narrativa nesse sentido. O clímax é fulcral em qualquer história. Vai ser o momento mais baixo do percurso do nosso personagem principal.
  • Outras cenas – uma história não vive apenas de pontos de viragem e clímax, temos de ter outras cenas, cenas essas que mostrem como são os nossos personagens, as relações entre eles, como é que as coisas estão a mudar ao longo da narrativa. É importante que todas as cenas tenham um objetivo e um momento de viragem (diferente de ponto de viragem que apenas acontece em 3 ou 4 casos ao longo da narrativa).

 

Convém salientar que a estrutura que definirmos nesta altura não fica escrita em pedra e podemos alterá-la a qualquer momento. Se estivermos a escrever (spoiler alert: é o próximo passo) e chegarmos à conclusão que uma dada cena não faz sentido, ou se quisermos acrescentar uma outra que entretanto se tornou importante, podemos sempre fazê-lo. Afinal de contas é a nossa história e podemos fazer com ela o que quisermos.

 

Dizem as regras do bom blogging que os posts não devem ter mais de 500-600 palavras, e este já vai com quase duas mil (eu acho que os meus leitores têm capacidade de concentração para muito mais do que 500 palavras!). Não esperava escrever assim tanto quando comecei este tópico, por isso o melhor mesmo será dividir esta lista em partes (não é uma grande surpresa para quem leu o título do post). Até aqui os passos são todos comuns para os diferentes meios de publicação. Os próximos também serão, mas a certa altura a lista vai bifurcar, apresentando num caminho os passos para a publicação tradicional, e no outro os passos para a publicação independente. O último passo volta a ser comuns aos dois meios.

O Medo

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(créditos da imagem: NordWood Themes)

 

Por vezes é paralisante. O medo de criar. O medo de mostrar ao mundo o que vai dentro da minha cabeça e que nunca ninguém viu. O medo de me expor, de mostrar o meu interior. O medo de ser vista com outros olhos. O medo de não ser boa o suficiente. O medo de falhar.

 

Nunca fui propriamente conhecida por ser uma pessoa criativa, longe disso, sou uma pessoa dos números e das ciências. É assim que sempre me vi e é assim que penso que os outros me vêem. Assumir uma nova identidade não tem sido fácil. Abrir-me e revelar-me como uma pessoa diferente daquela que pensava ser tem sido uma montanha russa de emoções. Tenho medo de ser julgada, de ser menosprezada, de que pensem que não tenho o direito de fazer isto que decidi começar a fazer. Sei que é parvo, que não me devia preocupar com nada disso, que esta devia ser a última coisa com que devia estar a perder o meu tempo e a minha energia, mas não é fácil.

 

Não sei porquê. Não sei realmente porque é que isto acontece. Não sei de onde vem o medo de assumir esta identidade. De dizer ao mundo, olhem esta sou eu, na minha cabeça há números e ciência mas também há palavras e frases e histórias que quero contar. Mas a verdade é que este medo está cá, sempre presente. Tem perdido força com o passar do tempo, mas continua cá, e não sei se algum dia vai passar. Talvez seja algo com que tenho de aprender a viver. E se assim for, não tenho dúvidas de que vou conseguir.

Crítica #14: Anatomy of a Darkened Heart de Christie Stratos

 

[Goodreads] [Amazon]

Título: Anatomy of a Darkened Heart
Autor: Christie Stratos
Editora: N.Ap.
Género: Dark victorian?
Ano de publicação: 2015

Classificação:

 

Tomei conhecimento deste Anatomy of a Darkened Heart através do Youtube da autora, que se chama Christie Stratos e é uma editora profissional que também escrever e faz vídeos no Youtube sobre escrita e revisão. Cheguei ao canal dela através dos vídeos do NaNoWriMo do ano passado e gosto muito de a ver.

 

Este foi o primeiro livro independente que li e não me arrependo nada. Comecei a ganhar interesse em ler o livro exatamente ao ver os vídeos da autora sobre escrita. Ela dá conselhos e faz algumas recomendações e por vezes acaba por dar exemplos do seu próprio livro. Ao ouvi-la falar dele fiquei com curiosidade. Além disso, tive todo o gosto em contribuir para a plataforma dela através da compra do ebook.

 

Nesta história seguimos a história da família Whitestone, a partir do nascimento da primeira filha e durante os 20 anos seguintes. É uma história que se centra essencialmente nos personagens e quase nada no enredo. Aliás, quase não existe enredo, apenas o dia a dia de uma família. Uma família conturbada, contudo, que permite que mergulhemos nos sentimentos mais negros da natureza humana. O género desta obra é “dark victorian”, que não sei muito bem como traduzir para português (vitoriano negro será o mais óbvio, mas será que sequer existe?). No fundo, este livro permite-nos observar os possíveis efeitos que ser uma criança não desejada pode ter sobre alguém, na mais terrível forma possível, sendo que este facto nunca foi propriamente escondido desta criança.

 

Lemos sob a perspetiva de todos os membros da família, um total de cinco personagens, todas elas brilhantemente desenvolvidas e totalmente distintas. Mas a personagem principal é Abigail, a filha primogénita e indesejada, que tem uma personalidade completamente distorcida, e nunca chegarmos a perceber se isso é um efeito ou uma causa da atitude da mãe. A mãe é ela própria uma personagem perturbada, com grandes falhas emocionais que provavelmente terão origem no seu passado, sem no entanto chegarmos a perceber exatmente onde. Quanto ao pai, achei-o uma personagem do mais cobarde que pode existir. Os irmãos, Emma e Christopher, apenas surgem na segunda metade do livro. No entanto, as suas personalidades são também bem marcadas e pareceu-me que Christopher acaba por ser quase igual ao pai, enquanto que Emma não se parece com ninguém, nem com a mãe, que sempre a terá preferido à irmã, Abigail, nem com a irmã, com quem Emma solidariza e a quem reconhece o sofrimento em que vive. Achei muito curioso o facto de as cenas do ponto de vista dos homens da família (o pai e o irmão mais novo) estarem quase todas escritas na primeira pessoa, sob a forma de entradas de diário, enquanto que as cenas do ponto de vista das personagens femininas (a mãe e as duas filhas) estão escritas na terceira pessoa.

 

Achei este livro fenomenal, tanto em termos de construção das personagens e cativação do leitor, como em termos da própria escrita e distinção de voz dos personagens. Fiquei contente por ter feito a minha estreia em livros independentes com um de tão elevada qualidade e pretendo continuar a apostar neste mercado, que quem sabe, poderá um dia vir a ser o meu também.

 

Não consigo arranjar outras obras que se comparem a esta para fazer uma recomendação, mas penso que as pessoas que mais gostarão deste livro serão aquelas que mais apreciam histórias centradas em personagens e não em ação. Não esquecer que não existe tradução para português.

 

Livros que deviam ser traduzidos para Português #1

Como já podem ter reparado pelas minhas leituras e críticas, leio a maior parte dos meus livros em inglês. Porque gosto, porque prefiro ler as palavras que o próprio autor escreveu em vez de uma tradução, porque a maior parte das vezes são mais baratos e consigo fazer com que cheguem a minha casa sem ter de me esforçar muito, porque estão disponíveis mais cedo do que as traduções portugueses, e também por vezes porque nem sequer chegam a estar disponíveis em português. E assim começa uma rubrica nova aqui no blog:

 

Porque muitas outras pessoas não lêem em inglês, ou porque não sabem, ou sentem que não são capazes ou porque simplesmente não querem, sempre que encontrar um livro (ou autor) que não esteja traduzido para a nossa língua mas que eu ache que seria de valor alguém tratar disso, esse pedido vai aparecer nesta rubrica.

 

E como não podia deixar de ser, o primeiro pedido vai para os livros da autora Morgan Matson.

 

 

A Morgan nasceu em 1981 na cidade de Nova Iorque e cresceu entre esta cidade e Greenwich, no Conneticut (tudo isto segundo a Wikipedia). Estudou Teatro e Inglês na universidade em Los Angeles e depois voltou para Nova Iorque onde tirou um Master in Fine Arts (MFA) em Escrita para Crianças. Depois voltou para Los Angeles e tirou outro curso, desta vez de Guionismo. Publicou o seu primeiro livro, Top 8, em 2008 sob o pseudónimo Katie Finn (descobri isto há muito pouco tempo e fiquei muito feliz por de repente ter ficado com mais livros da Morgan para ler). A Morgan escreve romances contemporâneos juvenis, dos melhores que alguma vez li, e ganhou o California Book Award com o segundo livro que publicou sob o seu próprio nome, Second Chance Summer.

 

 

Não percebo muito bem porque é que os livros dela ainda não estão traduzidos para Português. Talvez por serem fortemente baseados na cultura americana e em experiências tão típicas dos jovens americanos que acabam por ser pouco relacionáveis para os nossos jovens. Mas acredito que hoje em dia, com o número gigantesco de séries americanas a que todos temos acesso, essa questão já nem se deveria colocar.

 

Por favor, alguém que me esteja a ler e que tome estas decisões nas editoras, traduzam estes livros para português! Não tenho a mais pequena dúvida que os nossos jovens iam agradecer.

 

E jovens (e não jovens que gostem de literatura juvenil): se se sentem capazes de ler em inglês, façam um favor a vocês próprios e leiam estas livros. Não se vão arrepender.