Viagens: São Francisco – Viajar sozinha

Este verão fiz algo que nunca antes tinha feito: fui de férias sozinha. O R. tinha começado a trabalhar há pouco tempo, pelo que ainda não podia tirar férias e eu, por outro lado, tinha montes de dias de férias que tinha de gozar, e além disso estava a sentir uma necessidade gigantesca de desligar completamente do trabalho durante uns tempos. Por isso decidi escolher um sítio interessante e fazer-me à estrada (metaforicamente, porque fui de avião).

 

A escolha do sítio não foi complicada. Queria uma cidade interessante, não estava muito interessada num destino de praia. Queria um sítio onde pudesse perder-me nas ruas (novamente metaforicamente, não queria realmente andar perdida), andar no meio das pessoas, sentar-me em cafés e esplanadas sem ter grandes planos para os dias, e ter algumas atividades interessantes para fazer. As primeiras ideias foram Londres ou Paris, duas cidades que adoro e que estão aqui tão perto, mesmo a jeito para uma viagem deste género. Acabei por rapidamente excluir Londres por ser uma cidade onde já estive tantas vezes, que já conheço razoavelmente bem e porque já sabia que no final deste ano vou lá voltar por dois dias (e por um excelente motivo!). Paris ainda ficou no fundo da minha mente durante uns tempos, por ser uma cidade que adoro e onde facilmente conseguiria passar uns dias sozinha sem me fartar (aliás, espero ainda vir a fazê-o). No entanto, também já lá estive duas vezes, uma das quais durante 5 dias e não foi há tanto tempo quanto isso, por isso continuei a pensar em alternativas.

 

Por muito que a maior parte das pessoas continue a ficar admirada com este facto, a verdade é que eu adoro os Estados Unidos da América. Ou melhor, colocando a coisa por outras palavras e porque há coisas nos Estados Unidos de que eu não gosto, sou uma pessoa que adora visitar os Estados Unidos da América. Não sei muito bem como explicar este sentimento, mas tenho uma sensação quando chego aos Estados Unidos, que alguns podem achar estranha, de que estou a chega a casa. E aqui não quero ser mal interpretada, a minha casa, o meu país é Portugal e sempre será. Mas há esta sensação estranha de familiaridade com aquele país, parece que é um sítio ao qual também pertenço. Não sei se terá a ver com o facto de a maior parte da cultura e media que consumo ser produzida e passada nos Estados Unidos, quer sejam séries, filmes, livros ou documentários. Há coisas, costumes, hábitos, tradições, que apenas os americanos têm e pelos quais eu tenho um certo fascínio. Desde todo o aparato que fazem à volta de um jogo de basquetebol ou de basebol, ao tipo de celebrações que fazem em feriados como o 4 de Julho, aos churrascos no “backyard” onde reúnem amigos e família só porque faz sol. Os brunches, os smores feitos na fogueira num fim de semana de campismo, as roadtrips, os farmer’s markets, entre muitas outras coisas.

 

Eu própria já vivi nos Estados Unidos durante 6 meses no final do meu mestrado e apesar de não sido numa cidade muito interessante, adorei a experiência. Depois disso já fiz férias duas vezes por lá: a primeira exclusivamente em Nova Iorque durante 11 dias, aproveitando a ida a um congresso durante o doutoramento, e a segunda no ano passado, quando fizemos uma roadtrip de 20 dias e cerca de 4000 km.

 

Hoje em dia, felizmente tenho a sorte de ter um casal de amigos que vive nos Estados Unidos. Melhor ainda: vivem naquela que é para mim uma das cidades americanas mais interessantes e pela qual já tinha passado uns dias na roadtrip do ano passado: São Francisco. E então, falei com eles, perguntei se me ofereciam um teto e uma cama/sofá durante uns dias e mal eles disseram que sim, que teriam todo o gosto, de imediato comprei os voos de Lisboa para São Francisco.

 

Estive lá 7 dias inteiros, excluindo as viagens e tive uma semana inesquecível. Não fiz grandes planos, tinha duas ou três coisas que queria fazer, mas queria acima de tudo umas férias relaxadas, com tempo para fazer o que me apetecesse e sem a pressão de ter de visitar 3 locais de interesse por dia. Nunca pus despertador, apesar de mesmo assim ter acordado cedo todos os dias (o hábito já está muito enraizado), e a maior parte dos dias decidi o que queria fazer na própria manhã ou na véspera à noite. Caminhei quilómetros e quilómetros todos os dias, comi muito, andei de autocarro, metro e Uber pela primeira vez (e quase todos os dias depois dessa), tirei centenas de fotografias, fiz algumas compras, atravessei a Golden Gate bridge de bicicleta, fui ao museu da ciência, fui às compras ao Whole Foods e ao farmer’s market e preparei o jantar para mim e para os meus amigos (pizza com massa caseira). Comi cheesecake no Cheesecake Factory e gelado na Ghirardelli’s e pequenos almoços e brunches à americana, uns dias com panquecas e outros com ovos.

 

Nunca tinha ido de férias sozinha, e até pode ser que nunca mais tal se proporcione. Mas achei a experiência inegualável e recomendo a todos que o possam fazer. Não ter de depender de ninguém é muito bom, mesmo que habitualmente eu e o R. tenhamos sempre tendência para querer fazer as mesmas coisas quando viajamos juntos e seja sempre tudo muito pacífico entre nós. Ainda assim, ter total controlo sobre os nossos dias pode ser muito libertador, principalmente numa cidade completamente diferente. Se se voltar a proporcionar, nem sequer vou pensar duas vezes e já tenho em mente exatamente o que gostaria de fazer se voltar a fazer a férias sozinha.

 

 photo DSC00352_zpso9g61agz.jpg(vista de Bernal Heights Park)

 photo DSC00355_zpstivg69aa.jpg(vista de Bernal Heights Park)

 photo DSC00360_zpssupzsgfy.jpg(San Francisco Downtown vista de Bernal Heights Park)

 

 photo DSC00442_zpseandjge9.jpg(Alcatraz)

 photo DSC00499_zpsfcqg8yty.jpg(Farmer’s market)
 photo DSC00502_zps5nrzjdtm.jpg(Farmer’s market)

 photo DSC00508_zpsf0vexnht.jpg(Farmer’s market)

 photo DSC00511_zpswusuyhma.jpg(Farmer’s market)

 photo DSC00711_zpswyyifoxd.jpg(Baleias)

 photo DSC00753_zpsl0siej97.jpg(Pôr do Sol)

 photo DSC00805_zpslgujw5uz.jpg(Crocodilo albino no museu da ciência)

 photo DSC00818_zpshmmshluk.jpg(Borboleta no museu da ciência)

 photo DSC00849_zpsxhyhfrx8.jpg(Golden Gate Bridge)

 photo DSC00860_zpsi0ownwdc.jpg(Golden Gate Bridge)

 

(Mais fotos no próximo post sobre São Francisco)

Impossível

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Não desistas, não te entregues. Não te deixes ir ao fundo, não sejas fraco. O mundo é grande, chega para todos, tu consegues fazer tudo aquilo que quiseres. Se tentares com todas as tuas forças, é impossível não conseguires. Impossível. Não é sequer concebível que numa realidade tão gigante como é hoje a nossa, alguém não consiga o que quer que seja. Se tentar. Se for em frente. Se der tudo de si. Se não duvidar de si próprio. Se se levantar de todas as vezes que cair. Porque vais cair. Não duvides sequer por um momento que vais cair. Às vezes vais tropeçar e outras alguém te vai empurrar. Mas vais cair. E a chave está no levantar. No sacudir a areia e erguer a cabeça e continuar em frente. Porque se realmente o queres, então a queda só vai servir para te relembrar de quanto o queres. Vai dar-te mais força, vai fazer-te querer correr mais rápido sem sequer olhar para trás. Se realmente queres aquilo que queres, então o teu único foco vai ser na linha da meta, no fim do trilho, no destino, na chegada. Nada te vai distrair dessa visão. Nada te vai fazer parar. E se por momentos pensares que nunca vais la chegar, olha à tua volta. Vê as possibilidades. Pára, senta-te e volta a encontrar o foco. E lembra-te: é impossível. O mundo é demasiado grande, é impossível não conseguires. É impossível falhares. Se deres tudo de ti.

Vir a Itália e não comer

Estou neste momento em Itália, em trabalho. Cheguei há três dias. Não como nada há 4 dias. Sim, vim para Itália e ainda não comi nem uma migalha. Vou embora amanhã e tenciono continuar sem comer. O plano é mesmo não comer durante, pelo menos, 6 dias.

 

Quem me lê pode já estar a ficar chocado. E apesar de saber que as explicações que possa dar vão continuar a não fazer sentido para muitos, vou fazê-lo na mesma.

 

Aquilo que estou a fazer neste momento chama-se “water fasting”, ou em português, jejum de água. Consiste num período de tempo em que a única coisa ingerida é água. Esse período pode variar desde 8 horas (aquilo que todos fazemos à noite quando vamos dormir, ou seja, entre o jantar e o pequeno almoço do dia seguinte) até vários dias. Os protocolos mais habituais contemplam 3, 6, 7 ou 10 dias de jejum, mas há quem faça períodos bem mais longos. Mahatma Gandhi, por exemplo, fez vários jejuns, que duraram desde 1 dia até um máximo de 21 dias, tendo sido alguns deles por motivos ativistas e tendo-se mesmo tornado famosos. Há jejuns reportados de 25, 30 ou mesmo 40 dias. A maior parte das pessoas com quem tenho falado sobre este assunto tem logo como primeira reação duvidar de tal possibilidade. Mesmo quando falo do jejum que estou a fazer de apenas 6 ou 7 dias, as pessoas perguntam logo “Mas é sequer possível estar tanto tempo sem comer?” E a resposta resumida é: sim, é.

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Estamos tão habituados a comer regularmente, i.e. todos os dias, que nos custa a acreditar que este tipo de protocolos seja possível. Aliás, as comuns recomendações de “comer a cada 2 ou 3 horas”, supostamente para acelerar o metabolismo, vêm reforçar ainda mais esta crença e notícias como a que surgiu recentemente nos jornais dão ainda mais ênfase à necessidade de estarmos constantemente e ingerir alimentos.

 

No entanto, se pensarmos em termos históricos, fará esta crença sentido? Ainda para mais, com a recente moda da dieta do paleolítico, não deveríamos repensar este paradigma? Será que na idade da pedra, os nossos antepassados tinham bacon para comer ao pequeno almoço, e depois um naco de carne para o almoço e outro para o jantar? Conseguiriam eles caçar todos os dias? Tal provavelmente dependeria muito da região, da época do ano e de outros fatores, mas a crença atual é que não. Pensa-se que as comunidades passassem alguns dias sem comer, até conseguirem caçar algum animal, que aproveitariam até ao fim (incluindo orgãos internos), seguindo-se novo período sem alimento. Aliás, daí advém a adaptação humana para acumulação de gordura, única forma de conseguirem sobreviver a períodos mais longos sem alimento.

 

Felizmente, outras dietas começam a tornar-se moda, e uma delas é o jejum intermitente, que já começa a desmistificar significativamente a necessidade de comermos várias vezes ao dia, e principalmente, logo ao acordar. As pessoas que praticam jejum intermitente costumam fazer regularmente períodos de jejum reduzidos. Há vários protocolos, mas por exemplo, há quem faça diariamente 16 horas de jejum, que consiste muito simplesmente em saltar o pequeno almoço (por exemplo, acabar de jantar às 21h e no dia seguinte apenas almoçar às 13h), e há quem faça períodos ligeiramente mais longos, de 24 ou 36 horas, uma ou duas vezes por semana. Alegadamente, esta dieta ajuda na perda de peso mesmo mantendo a mesma ingestão de calorias, mas pelo que tenho lido online (e no fundo como todas as dietas), pode variar muito dependendo da pessoa.

 

Mas voltando ao meu jejum em Itália. Decidi fazer 6 ou 7 dias de jejum (dependendo de como correr, logo decido se faço os 7 ou se fico pelos 6). E decidi fazer esse jejum coincidir com uma viagem de trabalho de 4 dias e meio a Itália. Os meus motivos para tomar estas decisões foram variados, e passo a enumerar:

 

  1. Já tinha experimentado o jejum intermitente de 16 + 8 (o qual não sigo de momento) e tenho o hábito de volta e meia, mais ou menos uma vez a cada uma ou duas semanas, fazer 24 ou 36 horas de jejum. Já fiz também um jejum mais alargado de cerca de 2 dias e meio (65 horas), por isso já estou habituada a passar períodos de tempo sem comer.
  2. Sempre que faço jejum sinto-me bem. Gosto de não ter de me preocupar com comida, o que e quando vou preparar, quando vou ter tempo para comer, o que preciso de comprar, durante pelo menos um dia. Dá-me uma sensação de liberdade e acaba por sobrar mais tempo para outras coisas.
  3. Vejo um protocolo deste género como uma espécie de desafio pessoal, um teste à minha força de vontade e resiliência. Normalmente, quando imponho desafios deste género a mim própria, acabo por nunca (ou muito raramente) ceder.
  4. Ultimamente as minhas escolhas em termos alimentares não andavam a ser as melhores e senti que esta podia ser uma boa forma de retomar hábitos saudáveis, uma espécie de reset. Um protocolo deste género tem grandes propriedades de detox, e ninguém quer voltar a encher o corpo de porcarias logo após um detox tão profundo.
  5. Exatamente pelo detox propriamente dito. Lá está, a minha alimentação não tem sido a melhor nos últimos tempos, pelo que toxinas não devem faltar cá por dentro e queria tentar limpar um pouco. Quem já fez este tipo de jejuns muitas vezes alega pele mais lisa e limpa, sistema digestivo a funcionar melhor, menos cravings por porcarias, entre outros benefícios após o jejum.
  6. Pelas alegadas propriedades curativas do jejum. Teoricamente, quando o nosso corpo não tem de gastar energia a digerir alimentos e a armazenar energia na nossas células, consegue concentrar-se em outras atividades, nomeadamente em curar algumas lesões que possamos ter. Daí haver alegadas curas de cancro através do jejum prolongado (penso que nenhuma comprovada cientificamente). Para além disso, há quem alegue deixar de ter dores nas articulações que já duravam há anos, entre outras coisas. Eu não tenho nenhuma condição grave, mas tenho síndrome dos ovários poliquísticos. Isto quer dizer que tenho pequenos quistos nos ovários, entre outros sintomas, como por exemplo desregulação hormonal, e que posso vir a ter dificuldades em engravidar. Não estou à espera de curar esta condição através do jejum, e nem sequer vou monitorizar (não tenho nenhuma ecografia aos ovários marcada para depois do jejum). Mas pode ser que traga alguns benefícios, quando mais não seja na melhoria de alguns dos sintomas.
  7. Finalmente, decidi que a melhor altura para o fazer seria na semana em quem vim a Itália (e ainda por cima pela primeira vez) porque aqui a maior parte da comida típica (pastas, pizzas) está carregada de hidratos de carbono, algo que tento evitar, tanto por controlo de peso como exatamente pela condição dos ovários poliquísticos, que faz com que tenha tendência para a resistência à insulina. Assim, ao fazer jejum esta semana estou a evitar ingerir uma quantidade grande de hidratos de carbono que de outra forma não tenho a certeza se conseguiria resistir. É uma decisão dura, ainda por cima é a minha primeira vez em Itália, adoro pasta e pizza, e andava ansiosa por visitar este país, em parte pela comida maravilhosa. Mas a verdade é que estou aqui em trabalho. E para mim, cada vez mais me convenço que viagens de trabalho não podem significar excepções à dieta, por vários motivos. Porque viajo cada vez mais em trabalho, e se vou a usar isso como desculpa para provar coisas pouco saudáveis, nunca mais faço progressos na minha saúde. Porque quero muito implementar a estratégia de que posso comer coisas mais indulgentes e menos saudáveis mas apenas faz sentido fazê-lo em momentos de celebração e em convívio com outras pessoas, mas com pessoas das minhas relações pessoas, não em trabalho. Uma viagem de trabalho é mesmo isso: trabalho. E não deve servir como permissão para comermos como se estivéssemos em viagem de férias. Uma última vantagem é que estando aqui e não no meu local de trabalho habitual, não terei de me justificar perante as pessoas com quem costumo almoçar. Já sei que iriam ficar chocadas se eu dissesse que ia estar a semana toda sem comer, e assim, apenas tenho de explicar o que estou a fazer às duas ou três pessoas que vieram comigo nesta viagem, bem mais fácil.

 

Sinto-me bem com esta decisão, e até agora sinto-me bem sem comer. Não tem sido fácil, claro que não. Chega a hora de almoço na empresa e os colegas que vieram comigo encomendam pizzas (a empresa onde estamos a trabalhar não tem cantina). Ao jantar, o pessoal da empresa onde estamos a trabalhar levam-nos a comer a restaurantes bons. Estou obviamente a perder o pequeno almoço do hotel (que os colegas até dizem que não é nada de especial, não sei, nem sequer lá pus os pés, mas pronto, não deixa de ser pequeno almoço, ou seja, a melhor refeição do dia!). Por isso sim, é duro, muito duro. Mas isto mesmo torna o desafio mais interessante.

 

Em relação a fome, tenho sentido alguma. Para já o mais difícil foi a manhã do terceiro dia, se calhar por ter passado a barreira do meu jejum anterior mais longo. Sinceramente, pelos relatos que li na internet de quem já o fez, pensei que seria ligeiramente mais fácil aguentar a fome. Mas enfim, nada que eu não aguente, e pelo menos os 6 dias tenho a certeza que consigo fazer (sou bem capaz de abdicar do 7º).

 

Para já estou a gostar de fazer este desafio, e se me sentir bem até ao fim até gostaria de voltar a repetir no futuro, talvez até monitorizando mais aspetos da minha saúde, por exemplo, fazer análises e ecografias aos ovários antes e depois do jejeum, de forma a poder avaliar os efeitos. Não estou ainda convencida que este método seja a cura milagrosa que tantos garantem, mas que trará alguns benefícios, disso não tenho qualquer dúvida.

Livros favoritos de 2015

Tipicamente, este tipo de tópicos é escrito logo no início do ano, e a verdade é que o escrevi no início do ano, quando iniciei um outro blog que entretanto deixei morrer e foi apagado (logo duas ou três semanas depois de o ter iniciado). Por isso decidi recuperar o texto, para ficar aqui registado, na minha nova casa.

 

No ano de 2015 li um total de 20 livros. Pouco, muito pouco. Ainda assim, foi mais do que li nos anos anteriores. Desde 2010 que tenho um ficheiro onde registo todos os livros que leio, por isso sei quantos livros li em cada ano desde 2010. E confesso: tenho vergonha de alguns dos anos.

 

Lembro-me de ler o meu primeiro livro “a sério”. Tinha 8 anos, fui com os meus pais para o Algarve pela primeira vez e nessas férias de uma semana li 3 ou 4 livros “Uma aventura”. Lembro-me que só levei dois ou três e que os acabei antes do final das férias e pedi aos meus pais para me comprarem mais um para ter o que ler. Lembro-me perfeitamente que nessa altura (estava-se no ano de 1993) ainda não havia um Continente e um Pingo Doce (et cetera) em cada canto, por isso tivemos de andar à procura de uma livraria ou papelaria (que por vezes também vendiam livros dessas coleções juvenis) parase comprar mais um livro para mim. Aí começou a minha paixão pela leitura. Depois dessas férias, comecei a devorar tudo quanto eram coleções juvenis. Quando me perguntavam o que queria para o Natal ou anos a resposta era invariavelmente livros das duas ou três coleções que estava a fazer naquele momento. Quando ia ao Continente com os meus pais (ao contrário do Algarve, a minha terra é também a terra do primeiro Continente, aberto desde o Natal de 1985), o que lhes pedia para me comprarem era sempre mais um livros. Quando comecei a receber semanada, penso que a partir dos meus 10 anos e até ter começado a dar explicações na faculdade, a maior parte do meu dinheiro era sempre para comprar livros. Passava horas e horas a ler, tinha tempo para isso.

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Quando comecei a registar os livros que lia, estava a meio do doutoramento. Nessa altura, o tempo livre já não abundava, e por isso o número de livros lidos por ano é vergonhoso. Mas o facto de ter começado a fazer esse registo, fez-me aperceber que realmente estava a dedicar muito pouco tempo àquela que é uma das minhas maiores paixões. Nessa altura, para além do doutoramento, ocupava uma parte demasiado significativa do meu tempo a ver séries, pelo que não sobrava muito para a leitura. A partir daí, fui fazendo um esforço crescente para ler mais. A verdade é que hoje em dia, com tantas “distrações”, Facebook, Instagram, Youtube, blogs, ou simplesmente o senhor Google pelos mais variados motivos, torna-se difícil baixar a tampa do portátil e pegar num livro. Desde que entrei no mercado de trabalho a sério (após o doutoramento) tornou-se ainda pior, pois sempre li muito à noite ao deitar e desde que comecei a trabalhar que chego à cama tão exausta que por vezes nem uma página consigo ler e adormeço logo.

 

Por isso, tornou-se crítico começar a alocar tempo dedicado especificamente para ler, limitar o uso da internet para coisas inúteis e substituí-lo por tempo de leitura. Nos últimos anos tenho imposto um objetivo de livros por ano, que raramente cumpro mas que funciona como incentivo para ler mais. O objetivo para 2015 era 24 (dois por mês) e fiquei pelos 20. Não contente, ainda aumentei o objetivo para este ano para 26 (um a cada duas semanas, ligeiramente mais do que o objetivo do ano passado) mas já estamos no final de outubro e ainda só li 17 (duvido que consiga ler 9 livros nos últimos dois meses do ano, por isso já ajustei o objetivo novamente para 24, que mesmo assim é muito ambicioso).

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Por isso, sem mais justificações, aqui ficam os 10 melhores livros que li em 2015:

(nota: quando os títulos estão em Inglês é porque li mesmo os livros em Inglês)

 

10 – Sharp Objects de Gillian Flynn [Goodreads] [BookDepository]

Clássico estilo de Gillian Flynn, apesar de ter preferido Gone Girl. Já li todos da autora, exceto a novela que publicou recentemente, e Gone Girl é sem dúvida o melhor.

 

9 – Fangirl de Rainbow Rowell [Goodreads] [BookDepository]

Este foi o primeiro (e até agora o único) livro que li da Rainbow Rowell e gostei bastante. Fez-me lembrar os tempos antes do lançamento do último Harry Potter e toda a loucura da “fandom” na internet, comigo incluída (se bem que a “fandom” de HP continua bem viva!).

 

8 – The Wrath and the Dawn de Renée Ahdieh [Goodreads] [BookDepository]

Uma bela história de amor, nada lamechas e com um sentimento de leitura clássica.

 

7 – O Homem da Areia de Lars Kepler [Goodreads] [Fnac]

Clássico estilo de Lars Kepler, o que é sempre brilhante.

 

6 – P.S. I Still Love You de Jenny Han [Goodreads] [BookDepository]

Sequela de To All the Boys I’ve Loved Before. Não tão bom como o primeiro livro, mas ainda assim bastante cativante.

 

5 – Divergent de Veronica Roth [Goodreads] [BookDepository]

O melhor livro desta trilogia, cativou-me desde o início. Infelizmente, o segundo e o terceiro livros foram uma desilusão total…

 

4 – To All the Boys I’ve Loved Before de Jenny Han [Goodreads] [BookDepository]

Primeiro livro que li da Jenny Han e adorei. Deixou-me definitivamente com vontade de ler mais livros desta autora.

 

3 – The Sense of an Ending de Julian Barnes [Goodreads] [BookDepository]

Um livro que já queria ler há muito tempo. História muito boa e ainda melhor lição de vida. Sem dúvida que recomendo.

 

2 – O Pintassilgo de Donna Tartt [Goodreads] [Fnac]

É de mim ou toda a gente andava a ler este livro no início de 2015? Adorei-o e apesar de ser gigante, foi uma leitura bastante rápida.

 

1 – The Martian de Andy Weir [Goodreads] [BookDepository]

Brilhante! De longe o meu livro preferido de 2015. Principalmente devido à personagem principal. Gostava que mais livros tivessem personagens como esta.

Paixões

No mês passado fiz um curso de escrita criativa. Nunca na vida tinha feito algo do género, nunca tive muito interesse por atividades criativas e artísticas, mas descobri recentemente uma enorme paixão pela escrita, pelo que decidi investir algum tempo numa atividade mais formal de escrita. Quando a formadora perguntou a cada um de nós o motivo por que estávamos ali, a minha resposta foi algo deste género:

 

Sempre adorei ler, sou devoradora e consumidora compulsiva de livros. Por várias vezes ao longo da minha vida me passou pela cabeça o pensamento “hum, eu também podia fazer isto, um livro…” No entanto, sou uma pessoa altamente analítica, todo o meu percurso académico e profissional foi e é 100% voltado para as ciências, nunca me senti muito criativa, por isso o travão que sempre impus a mim própria e que me impediu de escrever foi “não, nem pensar, não tenho imaginação nem criatividade suficientes para isso”. Assim, inscrevi-me no curso de escrita criativa para pôr isso à prova e alimentar então a criatividade que supostamente todos temos dentro de nós.

 

A resposta da formadora foi para mim muito interessante e curiosa. Disse ela que também dá cursos de poesia e que a maior parte das pessoas que frequentam esses cursos são da área das ciências. Continuou dizendo que as pessoas mais analíticas e científicas têm tendencialmente uma mente muito aberta, e por isso mesmo costumam ser pessoas com muitos e variados interesses. Esta conclusão fez-me sentido, porque é real para mim. É algo sobre o qual já tenho desabafado com algumas pessoas: tenho demasiados interesses.

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Primeiro que tudo, há o meu trabalho. Desse não posso fugir e a verdade é que adoro aquilo que faço. Nuns dias mais do que noutros, vá, nada é perfeito e há aspetos dos quais não gosto tanto. Mas mesmo removendo esses aspetos menos positivos, e gostando eu do resto, é um trabalho carregado de stress, preocupações, desentendimentos, conflitos e muito, muito cansaço físico e mental (a maior parte das vezes mais mental do que físico).

 

Depois, há a saúde e o fitness. Não faço disto o meu principal hobby como algumas bloggers e instagramers que sigo, mas ainda ocupa uma parte significativa do meu tempo. Desde pesquisar receitas, ir às compras, preparar refeições, e depois arrumar a cozinha, preparar porções para congelar, planear os macros do dia seguinte no myfitnesspal. Fazer exercício, incluindo ginásio, caminhadas, natação, yoga. E ainda várias horas online a tentar perceber as melhores estratégias para perder peso (algo com que quase toda a vida lutei), quais os alimentos mais saudáveis, últimas tendências de treino, mindset, como dormir melhor, meditação. Resumindo, são mais uma quantas horas dedicadas a isto.

 

A seguir vem a leitura. Amo ler. Nem sequer sei explicar bem esta minha paixão mas perco-me nos livros e com os livros. Não consigo parar de os comprar porque há tantos que quero ler, por isso tenho tantos livros em casa por ler, e é uma coisa que me aflige, a falta de tempo para os ler a todos. Como é possível, tantos livros e tão pouco tempo? Neste momento, entre livros que fui comprando, outros que me ofereceram e muitos que trouxe de casa dos meus pais porque quero muito lê-los, tenho em casa mais de 100 livros por ler. Claro que com esta paixão não é só a leitura propriamente dita que ocupa o meu tempo. Há também os blogs de literatura, e acima de tudo, o Booktube. “E o que é o Booktube?”, pergunta quem não sabe. Bem, o Booktube é uma invenção maravilhosa que consiste numa comunidade de pessoas que gostam muito de ler mas também de falar sobre livros. E então essas pessoas filmam-se a si próprias a falar de livros: os livros que compraram e os que leram nesse mês, críticas ao que leram, “tags” de perguntas sobre livros, que livros esperam vir a ler no mês seguinte, visitas guiadas às suas estantes, entre outras coisas assim divertidas. Depois publicam esses conteúdos no Youtube e há muuuuitas pessoas que passam horas a ver esses vídeos e eu sou uma delas. Pode parecer estranho para quem não esteja muito familiarizado com o conceito, mas acreditem, é divertido. Eu adoro o Booktube, principalmente porque leio muitos livros em Inglês e se não fosse pelo Booktube não tomaria conhecimento nem de metade deles. Sigo perto de dez booktubers regularmente, o que ao final do mês dá umas boas horas de vídeos (não sei bem se chega a horas, nunca fiz as contas, mas é muito tempo). Tenho tentado reduzir este vício mas enfim, tenho de me manter atualizada, certo?

 

Depois da leitura vem obviamente a escrita. Esta é uma paixão recente mas que tem vindo a ocupar cada vez mais o meu tempo, e ainda bem. Desde o curso de escrita criativa que mencionei acima, a este blog, a outros projetos de escrita que tenho em mãos e que quero muito fazer andar para a frente. É verdade que descobri aos 30 anos que adoro escrever, mas nunca é tarde, certo? Quero mesmo transformar este no meu hobby principal e sinto que tal já está a acontecer.

 

Viagens! Quem não adora viajar? Para mim é uma das melhores coisas que se pode fazer. O meu principal objetivo de vida (a seguir a ser feliz) é conhecer tanto do Mundo quanto possível. Quando penso no dinheiro que sobra ao final do mês, o pensamento voa imediatamente para a próxima viagem. Mas eu tenho um enorme problema: eu gosto de planear as minhas viagens muito bem e com muita antecedência. E com isto não quero dizer que as minhas viagens sejam programadas ao detalhe, muito pelo contrário, quando vou de férias até prefiro andar ao sabor do vento e não ter grandes planos. Não é por aí. Mas para mim o planeamento começa com as pesquisas dos voos. Sou capaz de passar semanas (isto com meses de antecedência) a consultar os preços dos voos todos os dias, até sentir que tenho um entendimento mais ou menos bom de como os preços variam. Isto claro, para as viagens maiores, se decidirmos de repente fazer uma escapadela de dois ou três dias a coisa pode não funcionar assim. Pronto, depois de ter os voos comprados, aí chega a parte divertida. Procurar hoteis, qual a localização mais indicada para ficar segundo o tipo de atividades que queremos fazer, é preferível um hotel ou um AirBnB, arranjar uma lista de restaurantes interessantes onde possamos querer ir, quais os pontos de interesse da cidade, qual o melhor meio de transporte. Se for uma viagem com várias paragens então nem se fala: há que decidir o itinerário, quanto tempo vamos ficar em cada sítio, alugar carro, estimar custos com gasolina, portagens e outras despesas. Lembro-me tão bem quando planeei o itinerário da nossa roadtrip na costa oeste do Estados Unidos. O R. Tinha ido passar o fim de semana fora com uns amigos. Era sábado e eu estava sozinha em casa. Às 11 da manhã decidi: vou começar a pensar no itinerário para a nossa viagem. Trato disso numa horita, talvez hora e meia e depois vou almoçar. Fui almoçar 5 horas depois com o percurso basicamente todo definido para 20 dias e 3500 quilómetros! Faltavam mais de 4 meses para a viagem. Por isso, eu perco tempo com estas coisas. Eu chego de uma viagem e já estou a pensar na seguinte (a sério, acho que foi na semana a seguir a esta mesma roadtrip que comprei dois guias Lonely Planet para as viagens seguintes).

 

Estes são os principais, depois há hobbies que hoje em dia são menores. A culinária já ocupou uma parte muito significativa do meu tempo. Adoro fazer doces: bolos, bolachas, queques, scones, cupcakes, panquecas, variadas sobremesas. E quando faço gosto de fazer coisas elaboradas. Adoro quando os outros provam aquilo que eu fiz e vejo que estão verdadeiramente a gostar. Hoje em dia não invisto tanto tempo nisso porque acabava sempre por comer também e como me preocupo cada vez mais com a minha saúde e forma física, acabo por preferir não os fazer. Depois há as séries, que também já não ocupam nem de perto nem de longe o tempo que já ocuparam na minha vida. Eu era a pessoa que me orgulhava de seguir 13 séries semanalmente. Hoje não tenho tempo para isso, sigo 3 ou 4 e mesmo assim vão acumulando e não consigo ter quase nada em dia.

 

Resumindo: são muitos interesses, muitas paixões! Como arranjar tempo para dedicar a tudo isto se o dia só tem 24 horas e o fim de semana só tem dois dias? É que para além disto depois ainda há outras coisas a fazer: arrumar a casa (porque mesmo tendo alguém que nos ajude, há sempre coisas que temos de ser nós a fazer), estar com as pessoas (tipo, família e amigos, sabem, para não sermos apelidados de anti-sociais), pagar contas, tratar do IRS, levar o carro à manutenção, comprar prendas de aniversário, entre muitas outras coisas que agora de certeza não me estou a lembrar.

 

Sinto que estou sempre a ter de priorizar, e algumas coisas vão sempre ficando para segundo plano, para mais tarde, para quando houver tempo. Há que fazer opções, selecionar aquilo que realmente nos interessa e esperar pela idade da reforma para poder ter mais tempo para o resto. E aqui há mais um pormenor: é que eu ainda nem tenho filhos. Nem sequer consigo imaginar como vou conseguir conciliar tudo quando os tiver (já sei, não vou). E isso assusta-me e é um dos motivos (mas não o único) pelo qual ainda não me sinto preparada para os ter.

 

Mais alguém se identifica com isto? Não devo ser a única, pois não?

 

(Já agora, este blog não tem um tema particular, não é um blog de culinária, nem de fitness, nem de livros, nem de escrita, nem de lifestyle, mas aviso já que por aqui vão poder encontrar um pouco de todos os meus interesses que estão descritos aqui acima)

O casamento

Nunca sonhei em casar. Sempre sonhei em encontrar o amor da minha vida, mas nunca sonhei em casar. Para mim, estar com a pessoa amada seria suficiente, sem ser necessário um papel a comprovar o nosso amor. E também sempre disse que não sairia de casa dos meus pais para casar, que viveríamos juntos antes e de preferência, que ainda iria viver sozinha antes de vivermos juntos. Assim aconteceu. Na realidade, eu já estava pronta para abdicar da parte de viver sozinha porque estava pronta para ir viver com o amor da minha vida, mas ele ainda não estava preparado para tal, e por isso procurei casa, fiz as malas, saí de casa dos pais e fui viver sozinha. E assim foi durante 10 meses. Depois, por causa das voltas que a vida dá, quando finalmente ele estava preparado para vivermos juntos, eu recebi  uma proposta para o trabalho dos meus sonhos e vim viver para Lisboa. Ele ficou no Porto, e assim se passaram mais 9 meses a viver sozinha de segunda a sexta, e com ele aos sábados e domingos, alternando entre a casa do Porto e a casa de Lisboa. Depois de mais umas voltas, em que ele se mudou finalmente para Lisboa e depois ainda teve de voltar para o Porto, agora (há 6 meses) vivemos finalmente juntos a tempo inteiro. E adoro.

 

Mas voltando ao assunto do casamento, para mim viver com ele é mais do que suficiente e nunca precisaria de casar. Nem sequer pelos benefícios fiscais, já que a união de facto dá praticamente os mesmos direitos que o casamento.

 

Ao longo dos últimos anos, tenho ido a vários casamentos de amigos e família, pelo menos uns 10 e adoro ir a casamentos. Divirto-me mesmo, gosto sobretudo de estar com os amigos num ambiente relaxado, alguns que já não vejo há algum tempo, da comida (salvo algumas exceções), de dançar até não poder mais. Mas tenho perfeita noção de que o casamento não tem o mesmo significado para os meus amigos que tem para mim. Aliás, a maior parte deles saiu mesmo de casa dos pais para casar. Algumas das minhas amigas sonham desde pequeninas com o dia do seu casamento. E apesar de eu não dar importância nenhuma a um papel com algumas assinaturas, a verdade é que me emociono nos casamentos dos outros, principalmente daqueles que me são mais próximos. E isto deixa-me a pensar se o casamento no papel terá assim tão pouca importância para mim. Fico emocionada com o amor, e nada tem a ver com o casamento? Ou será que fico emocionada com a declaração pública de amor que está associada ao casamento? Não fará sentido, quando sabemos que queremos passar o resto da vida com aquela pessoa, ou seja, quando sabemos que encontrámos o amor da nossa vida, festejar esse facto com a família e amigos? Para mim é isto que faz mais sentido: partilhar a nossa felicidade com aqueles de quem gostamos. E esta partilha de felicidade não tem de implicar uma festa gigante, com quinta, banda, comida para um batalhão, flores e fogo de artifício. Eu e o amor da minha vida sempre dissemos que queríamos casar um dia, da minha parte confesso que mais pela festa do que pelo papel em si. Mas também sempre dissemos que não queríamos um casamento de arromba, porque queremos ser nós a pagar tudo e não queremos de todo gastar uma pequena fortuna numa festa. Consideraríamos isso um desperdício de dinheiro. Aliás, preferimos mil vezes investir numa lua de mel em grande. Assim, a forma como vejo o nosso casamento é na conservatória, com a nossa família mais próxima (umas 15 pessoas), um almoço com essas mesmas pessoas, e depois um lanche ajantarado caseiro com a família mais estendida e os amigos mais próximos. Gostava de ter música e de poder dançar, se bem que ainda não consigo visualizar muito bem como isso se processaria. Quero um vestido de noiva (porque pronto, são sempre bonitos) mas muito, mesmo muito simples. No fundo, seria tudo muito simples.

 

No fundo quero casar, e como se pode ver, até já perdi algum tempo a pensar em alguns dos pormenores. Mas apenas recentemente perdi algum tempo a pensar porque é que de facto quero casar. E é isto: partilhar a nossa felicidade com aqueles de quem gostamos.

 

Depois ainda há a questão do pedido de casamento, do anel de noivado e todas essas coisas mais tradicionais, mas isso já é toda uma outra conversa que vou deixar para outra altura.

Oferecer experiências

Este ano juntei as prendas de aniversário da minha mãe e do meu pai e ofereci-lhes uma viagem. Para mim, não há nada melhor no mundo do que viajar, e infelizmente, os meus pais nunca tiveram oportunidade de viajar muito.

 

Enquanto crescia, as férias de verão eram sempre passadas no Algarve, em Conceição de Tavira, entre praia, livros e sestas. Eram férias ótimas mas muito menos do que aquilo que a minha cede de viajar pedia.

 

Desde que me tornei independente, quase todo o dinheiro que ganho e que sobra no final do mês é gasto a viajar. Sinto que ainda viajei muito pouco, muito menos do que gostaria e do que ainda quero viajar. Mas já vi alguns sítios giros. Já passei 11 dias de férias em Nova Iorque, que até hoje estão em segundo lugar no meu top de viagens. Já visitei Londres várias vezes e Edimburgo uma vez. Já fui a Madrid, Barcelona e Paris. Já fiz uma roadtrip fenomenal pelo oeste dos Estados Unidos (número um do top so far) e já passei uma semana inteirinha sozinha em São Francisco. Já vivi em Baltimore e em Copenhaga e já fui a congressos em Wahingtom DC e em várias cidades da Alemanha. Até já passei uma semana num resort na Tunísia. Ou seja, quase nada. Ainda tenho tanto mundo para ver e uma ânsia enorme para o ver. Os planos são tantos, Ásia, New England, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Florida, Marrocos, São Tomé e Príncipe, Itália, o resto da Europa, voltar a Nova Iorque, voltar à Califórnia e ao Grand Canyon. Coisas que os meus pais nunca tiveram e nunca terão oportunidade de ver. Por isso decidi oferecer-lhes uma viagem.

 

A viagem deles não podia ser muito exótica pois pouco mais falam do que Português, por isso sugeri a Madeira. Eles nem pensaram duas vezes e aceitaram o destino. Para que pudessem estar completamente à vontade e sem se preocuparem com despesas, paguei tudo: voos, hotel com meia pensão, carro e gasolina. Eles apenas tiveram de pagar almoços e mais alguns snacks e cafés que lhes apetecesse, basicamente o mesmo que gastariam se estivessem por casa.

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Durante os últimos 5 dias tenho falado com eles todos os dias, quase sempre duas vezes por dia. E sinto uma alegria imensa por estar a proporcionar-lhes esta experiência. O meu pai já tem 69 anos e a minha mãe 66. Infelizmente e por muito que me custe dizê-lo ou sequer pensar nisso, nenhum deles tem uma saúde de ferro, pelo que adivinho que já não terão muitas mais oportunidades para viajar. Esta viagem poderá muito bem ser a mais preciosa das suas vidas. Do meu lado, sinto-me imensamente realizada por lhes poder proporcionar isto. Tanto que eles fizeram por mim durante toda a sua vida, tanto que sacrificaram. O dinheiro nunca foi muito mas havia sempre o suficiente para comprar os meus livros, para pagar o curso de Inglês e as propinas da universidade, para eu ter uma semanada que me permitia ir ao cinema com os amigos e ainda comprar umas coisinhas para mim. E havia sempre a semaninha no Algarve que eu sei que lhes custava a pagar mas que nos sabia pela vida aos três.

 

Eles merecem. Merecem isto e muito mais. São os pais mais espetaculares que existem no mundo e nunca tiveram sorte na vida. Muito pelo contrário, sempre tiveram uma vida difícil quando nada fizeram para o merecer. Enquanto puder continuar a proporcionar-lhes estes prazeres, irei sem dúvida fazê-lo. Só espero que eles consigam desfrutar deles durante mais alguns anos.

Estou sozinha outra vez

E pronto, estou sozinha outra vez. Quando pensei que já lá iam os tempos de viver sem ti, que agora era para sempre, que não nos voltaríamos a separar, tu voltas a ir embora e eu volto a ficar sozinha. E tenho a casa toda só para mim e é tão bom, mas ao mesmo tempo é tão mau. Tão solitário. E tenho muito mais tempo para fazer o que me apetece e tantas coisas que me apetece fazer, e no entanto, parece que fico paralisada e não me apetece fazer nada. Faço planos na minha cabeça, vou ler e escrever e passear e organizar a casa e depois acabo por ficar a tarde toda no sofá em frente ao computador, a perder horas no facebook e no youtube. E vou para a cama e não estás lá e posso rebolar e ocupar o espaço todo, mas continuo no meu canto porque o teu lugar ainda é o teu lugar e afinal o candeeiro está do meu lado. E acordo de manhã e posso usar a casa de banho sem me preocupar com os teus horários, demorar o tempo que eu quiser, estar à vontade. E quando chego a casa à noite e me apetece contar o meu dia e saber coisas do teu dia, tu não estás lá para conversar. Não estás nos dias em que estarias de mau humor e nem sequer olharias para mim, nem nos dias em que estarias alegre e entusiasmado e em que me contarias tudo o que se passou no trabalho e com os colegas e no ginásio. Não estás e nem sequer te posso ligar porque sei que não vais atender. E posso ser desarrumada como sou, sem tu te chateares, apesar de não me apetecer e de querer ao máximo manter tudo organizado. Posso pôr a música em altos berros sem tu reclamares que já não se faz música como antigamente, e dançar pela casa sem tu ficares a olhar para mim enquanto reviras os olhos. E se me apetecer ficar acordada até tarde, apesar de saber que não devo, tu não estás lá para me dar na cabeça e obrigar a ir para cama porque “preciso de dormir”. Mas nada disso compensa o facto de que não estás lá. Não estás lá para me chatear, nem para me dar na cabeça, nem para me revirares os olhos, nem para me abraçares. E eu sinto a tua falta. Pensei que não ia sentir mas sinto. Mais do que queria.